Embrapa busca soluções regenerativas para o agro na Mata Atlântica
Publicado em 07/10/2025 às 09:07 edição Lenilde Pacheco
Pesquisadores propõem a disseminação de soluções e tecnologias para o agro sustentável - Foto: Rachel Bardy Prado/Embrapa
A Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta, enfrenta desafios críticos de conservação, mas também guarda oportunidades estratégicas para o futuro da agropecuária brasileira. Com presença em 17 estados e em 3.429 municípios, abriga cerca de 70% da população nacional e fornece serviços essenciais como abastecimento de água, manutenção da qualidade do ar e suporte à geração de energia hidrelétrica. Apesar disso, apenas 12,4% de sua cobertura florestal original permanece de pé, e boa parte dos remanescentes está em áreas privadas.
Esses dados preocupam pesquisadores, gestores e agricultores, especialmente diante da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, em novembro de 2025.
De acordo com Rachel Bardy Prado, pesquisadora da Embrapa Solos, mesmo ocupando apenas 27% da área agropecuária nacional e 15% do território do País, a Mata Atlântica responde por cerca da metade dos alimentos consumidos diretamente pelos brasileiros. Nela concentram-se 52% da produção vegetal de consumo direto, 56% da produção animal e números expressivos de culturas estratégicas: 90% do feijão preto, 97% da maçã, 63% dos ovos, 61% da cebola e 88% dos brócolis.
“Esse protagonismo, contudo, tem custo alto. Ciclos de monocultura, preparo inadequado do solo e sobrepastoreio aceleraram processos erosivos, reduziram a produtividade e aumentaram a vulnerabilidade ambiental. Rios como Paraíba do Sul e São Francisco tiveram suas vazões comprometidas por desmatamento, erosão e sedimentação dos rios, agravando a escassez hídrica em regiões densamente povoadas”, destaca a pesquisadora.
Neste contexto, especialistas da Embrapa apontam que é preciso avançar com a disseminação de soluções, tecnologias e políticas públicas voltadas à prática de uma agricultura sustentável na Mata Atlântica. ”Ações que busquem a manutenção da biodiversidade e dos ecossistemas e também a segurança alimentar, hídrica e energética, com uma maior agregação de renda aos produtores, especialmente os de base familiar, com a redução da pobreza e das desigualdades sociais são essenciais nesse bioma”, completa Rachel Prado.
A Embrapa e diversos parceiros, como produtores rurais, técnicos da extensão rural, agências de fomento à pesquisa, universidades, setores governamentais e não-governamentais e empresas privadas, têm se debruçado no desenvolvimento de soluções capazes de contribuir com as lacunas do desenvolvimento sustentável observadas no bioma Mata Atlântica. “A Empresa possui 14 centros de pesquisa localizados nesse bioma, com atuação diversa e complementar, muitas delas com foco no desenvolvimento de soluções agroambientais, com o desenvolvimento de conhecimento e de diversos ativos ambientais. Atualmente existem 577 ativos disponíveis para serem aplicados no bioma Mata Atlântica”, revela a pesquisadora Mariana Carvalhaes, da Supervisão de Portfólios de Ativos e Serviços da Embrapa.
Tecnologias em destaque
Alguns desses ativos já estão qualificados pela Embrapa, ou seja, passaram por um crivo técnico sobre sua viabilidade socioeconômica, ambiental, mercadológica e legal. São tecnologias selecionadas e capazes de dar grande contribuição para promover efetivamente a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos, a partir de restauração de ecossistemas, em consonância com a produção agropecuária. São eles: Aplicativo Restaura Mata Atlântica (Embrapa Agrobiologia/RJ), Estradas com Araucárias (Embrapa Florestas/PR) e Multiplicação de colônias de abelhas-sem-ferrão em escala comercial para uso na polinização agrícola (Embrapa Meio Ambiente/SP).
O aplicativo Restaura Mata Atlântica é um dispositivo móvel contendo informações sobre espécies florestais nativas da Mata Atlântica que podem ser usadas nas ações de restauração das florestas do bioma. A ferramenta é um desdobramento do material disponibilizado na Plataforma WebAmbiente, da Embrapa, criada para apoiar técnicos, posseiros e proprietários de imóveis rurais na resolução dos passivos ambientais vinculados à Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei 12.651/2012). Sua principal proposta é a identificação, de forma rápida e dinâmica, das características ecológicas, fisiológicas, fitotécnicas e econômicas das espécies vegetais com potencial para uso em projetos de restauração ecológica ou adequação ambiental.
“A ideia é que, a partir dessas informações, o produtor rural seja estimulado a se adequar à legislação ambiental, promovendo a restauração das áreas de preservação permanente, das áreas de reserva legal e das áreas afetadas por danos ambientais em suas propriedades, de modo que tenha algum retorno econômico ou produtivo, a exemplo do pagamento por serviços ambientais ou da extração de produtos florestais, como madeira, extratos vegetais, frutas, plantas ornamentais e outros”, explica Luiz Fernando de Moraes, pesquisador da Embrapa Agrobiologia e idealizador do aplicativo,
Para encontrar todas as informações necessárias, o usuário do Restaura Mata Atlântica pode utilizar o botão Busca catálogo ou Busca por estado. Para cada opção, explicam os especialistas, é possível criar filtros considerando espécies fixadoras de Nitrogênio, biomas, uso econômico, tipos de solo e ocorrência. Também é possível saber se a espécie é ameaçada de extinção, criar uma lista de espécies “favoritas” e ainda compartilhar as informações. O aplicativo é gratuito, está disponível para download no Google Play e pode ser usado on line ou off line. “Além disso, foi elaborado de forma que possa ser atualizado permanentemente com novas informações sobre as espécies, a partir do conhecimento dos usuários, em um raro exemplo da aplicação do conceito de ciência cidadã”, ressalta Morais.
O Estradas com Araucárias é um projeto que incentiva, por meio de pagamentos por serviços ambientais, o plantio de Araucaria angustifolia em divisas de propriedades rurais familiares com faixas de domínio de estradas. Os plantios são realizados fora da faixa de domínio das estradas, atendendo rigorosamente à legislação. Os produtores rurais plantam araucárias em suas propriedades e são pagos por empresas privadas, que utilizam as árvores para compensar emissões de gases de efeito estufa e para promover outros serviços ambientais, como o paisagismo de estradas, proteção ambiental, preservação da araucária, educação ambiental, produção de pinhões, benefícios para a fauna e conforto térmico para o gado.
Segundo o pesquisador Edilson de Oliveira, da Embrapa Florestas, idealizador do projeto, o mesmo busca aumentar a população de araucárias, cuja exploração intensiva durante décadas, para abastecimento do mercado madeireiro interno e para exportação, aliada ao desmatamento para a expansão da agropecuária, provocou forte declínio populacional da espécie. Iniciado em 2011, a ação contempla 80 propriedades, nos municípios da Lapa, Fernandes Pinheiro, Fazenda Rio Grande e São João, no estado do Paraná, Caçador e Concórdia, em Santa Catarina e Siberi, no Rio Grande do Sul.
“Cada produtor recebe anualmente, desde o início do projeto, R$ 1 mil, referentes a pelo menos 200 araucárias que ele planta e cuida nas divisas de sua propriedade com estradas. Já foram plantadas 20 mil araucárias, mas considera-se que o resultado mais positivo é a disseminação que a técnica vem tendo entre produtores, principalmente os que não são familiares, que adotam voluntariamente a prática de plantar araucárias em suas divisas, pelas vantagens que estas árvores oferecem “, comenta Oliveira.
O Estradas com Araucárias (Roads with Araucarias) foi selecionado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (ONU – DESA) para compor o conjunto de como boas práticas, histórias de sucesso e lições aprendidas na implementação da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Já as Boas práticas para instalação e manejo de colônias de abelhas-se-ferrão, orientam o manejo de abelhas nativas que podem ser criadas zootecnicamente e gerar diversos produtos para consumo e comercialização, a partir dos recursos florais das matas, explica Kátia Sampaio Braga, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente. ”Esse grupo de abelhas, cujo interesse pela sua criação vem crescendo nas áreas rurais e urbanas, é bastante diverso no Brasil e se destaca por representar até 70% das abelhas em atividade na copa das árvores em ambientes florestados, contribuindo com a reprodução de diversas espécies de plantas nativas, do bioma Mata Atlântica”, acrescenta Braga.
Nesse sentido, a pesquisadora também lembra da tecnologia “Sistemas Agroflorestais Agroecológicos e Biodiversos para a região Sudeste”. “Além desses sistemas serem utilizados para restauração ecológica e produtiva, a presença do elemento árboreo e a ausência de agrotóxicos em seus cultivos possibilitam um casamento perfeito entre a produção vegetal, policultivo com diversidade de flores no tempo e no espaço, com a produção animal, no caso a meliponicultura. Ainda, ampliando o alcance dessa tecnologia, a plataforma Ater+ Digital da Embrapa organiza e torna acessível, para agentes da extensão rural e agricultores, informações técnicas e científicas, com curadoria, para o planejamento, implantação e manejo desses sistemas, divulgando ainda o curso EAD de Sistemas Agroflorestais Agroecológicos na Mata Atlântica, ofertado gratuitamente pela própria Embrapa”, acrescenta Braga.
Capacitação e conhecimento científico
Além das tecnologias, outro quesito fundamental para promover a transição para uma produção agropecuária que considere em suas decisões a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos é a capacitação e disseminação do conhecimento científico, destaca Rachel Prado. Foi nessa linha que a Embrapa Solos e colaboradores lançaram em 2025 a Trilha de Aprendizagem “Serviços Ecossistêmicos na Paisagem Rural”, composta por três cursos gratuitos disponíveis no e-Campo da Embrapa. Segundo a coordenadora dos cursos, a pesquisadora Elaine Fidalgo, da Embrapa Solos, o objetivo é capacitar os participantes para a identificação dos serviços ecossistêmicos na paisagem rural visando a uma agricultura sustentável.
O foco da Embrapa em ações que busquem a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos nas paisagens rurais, assim como o aproveitamento sustentável da riqueza da biodiversidade brasileira, levou à criação do Portfólio de projetos Economia da Biodiversidade, para estimular e promover pesquisas e inovação nessas áreas. A ideia é fortalecer as cadeias de produção com base na bioeconomia, para melhoria da qualidade de vida da sociedade brasileira, principalmente agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais, no contexto da saúde única.
Olhar para a COP30
Com a proximidade da COP30, o debate sobre a Mata Atlântica ganha centralidade. A preservação da biodiversidade, a restauração de ecossistemas e a valorização dos serviços ambientais não são mais pautas exclusivas de ambientalistas. São estratégias de sobrevivência e competitividade para a agropecuária brasileira, que precisa se tornar mais resiliente às mudanças climáticas e às demandas do mercado global por produtos sustentáveis.
O futuro do bioma — e do País — passa por um caminho claro: a integração entre ciência, inovação, conservação e geração de renda. O desafio agora é fazer com que governos, empresas e produtores avancem na adoção dessas soluções em larga escala.
Fonte: Embrapa Meio Ambiente