Cerrado perde 7,9 milhões de hectares de vegetação secundária desde 1987
Publicado em 11/09/2026 às 14:27 edição Lenilde Pacheco
Perda também tem afetado áreas onde a recuperação já vinha se consolidando - Foto: Wenderson Araújo/CNA
O Cerrado perdeu 7,9 milhões de hectares de vegetação secundária desde 1987, área quase duas vezes superior à do Estado do Rio de Janeiro. O dado integra um levantamento inédito realizado por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) na rede MapBiomas e divulgado nesta quinta-feira (11), Dia do Cerrado.
Em 2025, a vegetação secundária ocupava 7,5 milhões de hectares, o equivalente a 8% da cobertura remanescente do bioma. Trata-se de áreas de vegetação nativa que se regeneram após o desmatamento, seja por processos naturais, seja por iniciativas de restauração.
Embora contribua para recompor parte das perdas provocadas pela supressão da vegetação nativa, a vegetação secundária permanece altamente vulnerável. Sem mecanismos específicos de proteção, 73% das áreas desse tipo que foram perdidas no Cerrado voltaram a ser desmatadas em até dez anos após a primeira derrubada.
A nova supressão interrompe o processo de regeneração, reduz a capacidade de recuperação dos ecossistemas e provoca novas emissões de gás carbônico (CO₂), um dos principais gases responsáveis pelo aquecimento global.
“À medida que a vegetação secundária se desenvolve, ela pode acumular biomassa e carbono, ampliar a conectividade da paisagem e recuperar parte das funções ecológicas. Isso não significa que ela seja equivalente à vegetação primária, mas mostra por que sua permanência tem um papel importante no avanço da recuperação do Cerrado”, afirma Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM e da rede MapBiomas.
Estudo publicado na revista Science, com base em florestas da América do Sul e da América Central, mostrou que florestas secundárias podem acumular carbono 11 vezes mais rapidamente do que florestas primárias. Apesar desse potencial, o desmatamento da vegetação secundária já representa 13,6% de toda a área desmatada no Cerrado desde 1987.
A pressão também atinge áreas em estágio mais avançado de regeneração. Segundo Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e da rede MapBiomas, a maior parte da perda ocorre em áreas jovens, mas 27% das supressões atingem vegetação secundária com 11 anos ou mais.
“Isso mostra que esta perda também tem afetado áreas onde a recuperação já vinha se consolidando há mais de uma década. Quando uma área de vegetação secundária é novamente suprimida, os impactos acumulados sobre a estrutura e a diversidade do ecossistema amplificam os efeitos da degradação e tendem a tornar as paisagens cada vez menos resilientes aos efeitos dos eventos climáticos extremos”, explica o pesquisador.
Entre 2017 e 2025, o desmatamento de áreas de vegetação secundária cresceu 19,9% em relação ao período de 2006 a 2017. Na última década, 67 municípios do Cerrado perderam pelo menos mil hectares a mais de vegetação secundária do que recuperaram.
As áreas mais pressionadas estão concentradas principalmente no Matopiba, uma das principais fronteiras de expansão agrícola do país, que reúne municípios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
O avanço sobre áreas em regeneração ocorre mesmo diante da recente redução dos índices de desmatamento no bioma. De acordo com o MapBiomas, o Cerrado preservava, em 2025, 99,4 milhões de hectares de vegetação nativa — cerca de 49,6% de sua cobertura original.
Os dados reforçam um desafio estratégico para a conservação do bioma: além de conter o desmatamento da vegetação nativa remanescente, é necessário proteger as áreas em processo de regeneração. A permanência dessas áreas amplia o estoque de carbono, favorece a conectividade dos habitats e fortalece a capacidade dos ecossistemas de responder aos impactos das mudanças climáticas.