Novos eleitos asssumirão mandatos sob impactos do Super El Niño
Publicado em 30/09/2026 às 16:02 edição Lenilde Pacheco
Planos de governo dos principais candidatos à Presidência reservam espaço limitado ao clima - Foto: Pixabay
Quem vencer as eleições começará 2027 administrando os efeitos de um El Niño que pode se tornar o mais forte já registrado. O Brasil está particularmente exposto: um novo estudo do Climate Impact Lab projeta 13,3 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no país até fevereiro, o quinto maior número entre os países analisados. E o calor é apenas uma parte do risco: secas, incêndios e chuvas extremas também estão entre os impactos previstos para o território brasileiro associados ao fenômeno.
A política climática estará entre as primeiras consequências do voto que a população poderá sentir diretamente. Sistemas de alerta, prevenção de desastres, resposta da Defesa Civil, saúde pública e adaptação exigem decisões políticas e recursos. O Congresso também terá papel importante: deputados e senadores votam o Orçamento e mudanças na legislação, fiscalizam políticas públicas e analisam créditos extraordinários abertos pelo Executivo para responder a calamidades. Só em 2026, dez medidas provisórias relacionadas a desastres climáticos chegaram ao Congresso, envolvendo R$ 3,2 bilhões.
O histórico recente mostra o que acontece quando a política climática cede lugar ao negacionismo, ao desmonte institucional e à tolerância com ilícitos ambientais. O Fakebook.eco, projeto criado para documentar a política ambiental durante o governo Bolsonaro, mantém um arquivo sobre decisões e discursos do período de 2019 a 2022. Entre os registros estão o enfraquecimento da governança climática, dos planos de controle do desmatamento e da capacidade de órgãos ambientais. O material é um ponto de partida para comparar aquele período com as propostas e equipes apresentadas agora pelas candidaturas.
Para olhar para frente, um levantamento feito pelo Observatório do Clima compara os planos de governo dos principais candidatos à Presidência e mostra um espaço limitado dado ao clima nas propostas eleitorais. Já o Vote pelo Clima reúne candidaturas que já aderiram voluntariamente a compromissos de enfrentamento da crise climática. A plataforma permite pesquisar por estado, cargo e temas — inclusive “redução de desastres” — e atualmente reúne cerca de 250 candidaturas validadas. Os compromissos são autodeclarados e podem funcionar como ponto de partida para confrontar promessas eleitorais com o histórico e as propostas de cada candidato.
Com um El Niño excepcional avançando justamente durante a transição de governo, a cobertura eleitoral pode fazer uma pergunta que vai além de quem reconhece ou nega a mudança do clima: quem está propondo políticas, orçamento e capacidade institucional para responder aos impactos de eventos extremos?
Clima fica à margem das campanhas: enquanto o debate eleitoral se concentra em escândalos e disputas religiosas, poucas candidaturas tratam a crise climática como prioridade, mesmo diante de um El Niño potencialmente excepcional e de seus impactos sobre o Brasil. Só 186 das 6.129 candidaturas monitoradas pelo Barômetro, da FALA, mencionaram mudanças climáticas no primeiro mês de campanha. Entre as que falam do tema, predominam candidaturas de esquerda: 158, ou 84,9%.
À medida que a temperatura sobe, aumentam também os temporais no Sul: o Pacífico Equatorial marcou +2,2°C acima da média em 28 de setembro. Em setembro, até o dia 28, o Rio Grande do Sul voltou a sofrer com temporais, fortes chuvas, granizo e vendavais em 73 municípios, segundo os registros no sistema federal de defesa civil. Em Santa Catarina, foram 62 municípios atingidos. Chuva acima da média no Sul é o padrão típico do El Niño. Cada evento ainda depende de estudos de atribuição, mas o fenômeno atua sobre um planeta mais quente, em que a atmosfera retém mais umidade e as chuvas extremas ficam mais intensas.
Nordeste fecha setembro abaixo da metade da capacidade, e a Paraíba tem a maior perda do mês: os açudes paraibanos foram de 50,4% para 45,6% desde o início do mês, a maior queda da região. No conjunto, os 543 reservatórios monitorados pela ANA no Nordeste recuaram de 49,4% para 46,9% no período, e os seis estados com dado agregado caíram nesta semana. Ainda faltam de quatro a cinco meses de estiagem até as chuvas de fevereiro a maio no norte da região. São justamente essas chuvas que o El Niño costuma reduzir. No Sudeste/Centro-Oeste, o maior subsistema elétrico do país voltou a cair, para 57,1%.
Setembro tem 27 vezes mais pessoas tiradas de casa por tempestades do que em 2025: até o dia 28, 23.958 pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas por chuva, vendaval e granizo, em 194 municípios de 11 estados, contra 873 no mesmo período de 2025. São Paulo concentra 15,1 mil, com Itaquaquecetuba (8.551) e os municípios do Vale do Ribeira; o Rio Grande do Sul soma 4,2 mil. Os temporais de 25 a 27 de setembro no Sul ainda quase não aparecem nesses números, que dependem do registro feito pelos municípios no sistema federal. No ano, 560,3 mil pessoas tiveram de deixar suas casas, 69,0% a mais que em 2025, embora o total de afetados, 19,7 milhões em 2.275 municípios de 26 estados, seja 21,0% menor. Na seca, 122 municípios de 11 estados tiveram decretos reconhecidos pelo governo federal em setembro; neles vivem 1,52 milhão de pessoas, e o Piauí responde por 46 deles. O mapa repete o padrão histórico do El Niño: tempestades no Sul, seca no Nordeste.
Fonte: ClimaInfo