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Opinião: Reciclável não é o mesmo que reciclado; taxa de reúso permanece estagnada

Publicado em 28/06/2026 às 23:44 edição Lenilde Pacheco


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Luiz Grilo: demanda mais urgente das cooperativas é piso, teto e esteira - Foto: Divulgação

Por Luiz Grilo*

Uma embalagem reciclável é tecnicamente apta a ser reprocessada. Uma embalagem reciclada, de fato, percorreu toda a cadeia: foi coletada, triada, processada e virou matéria-prima nova. A diferença parece semântica, mas não é. Trata-se do eixo em que a economia circular brasileira está hoje.

O Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio que consome, 16 anos consecutivos acima de 96%, segundo a Recicla Latas. No mesmo país, menos de 9% do total de resíduos sólidos urbanos é efetivamente reaproveitado, conforme a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). E 40% do material que chega a uma cooperativa de catadores volta para o aterro, segundo estudo da Yattó de 2025. Três números que sintetizam o problema: reciclável não é o mesmo que reciclado.

O problema não é falta de consciência ambiental. É uma falha de design econômico em camadas. A primeira é tributária: o material reciclado é bitributado em relação à resina virgem. A segunda é de infraestrutura: a cadeia logística de retorno não fecha financeiramente fora dos grandes centros. A terceira é o equívoco de origem no produto. Muitas empresas migraram para embalagens flexíveis monomaterial — reduziram plástico, cortaram custos. Ganhos reais. Mas chegam a cooperativas sem esteira adequada e vão para o aterro.

Há ainda o mecanismo de crédito de compensação, legítimo como instrumento de financiamento, mas que em alguns casos virou atalho para quem quer o selo sem percorrer a rota. A meta de reciclagem subiu de 10% para 32%, e a taxa geral permanece estagnada abaixo de 9%. Os recursos circulam, o material não. Quem paga a conta é o município, e a própria cooperativa, que desconta esse custo do rendimento já mínimo.

A tecnologia entra não como redenção, mas como auditora. O Brasil já tem dados para mapear quais materiais são efetivamente reciclados em quais municípios. Mas aplicar inteligência artificial onde catadores trabalham no chão batido, sem teto, é instalar software em empresas sem energia elétrica. A demanda mais urgente das cooperativas hoje não é IA: é piso, teto e esteira.

O caso da latinha prova que o Brasil sabe construir cadeias circulares eficientes, e que o motor não é consciente: é margem. A latinha tem 97,3% porque tem valor de mercado consolidado. Se a embalagem de salgadinho tivesse o mesmo valor, ninguém a deixaria no chão. Digitalizar a cadeia de resíduos, criar subsídios e endurecer as regras de comunicação nas embalagens são passos concretos. A questão é se vamos esperar a crise ou antecipar a transição.

Sobre Luiz Grilo

Luiz Grilo é formado em Processos Gerenciais pela FGV e atua como Diretor Institucional e de Novos Negócios na Yattó, startup com 10 anos de experiência no mercado, especializada em circularidade e focada em resíduos de baixa reciclabilidade. Reconhecido como campeão brasileiro do Global Student Entrepreneur Awards em 2017 e, mais recentemente, como Programa Empreendedor do Ano pela EY Brasil em 2024, Luiz acredita que o futuro é circular e que um ambiente de negócios mais promissor deve contar com recursos e compromissos alinhados às agendas de combate às mudanças climáticas.

Luiz Grilo é Diretor Institucional e Novos Negócios da Yattó.