Opinião: Perda de habitat é a maior ameaça à fauna silvestre e exige restauração ecológica
Publicado em 04/10/2026 às 16:07 edição Lenilde Pacheco
Mário Barila: ambientalista e fundador do Projeto Água Vida
Por Mario Barila*
O Dia Mundial dos Animais, celebrado em 4 de outubro, impõe uma reflexão urgente sobre a situação da fauna silvestre brasileira, especialmente em um país que abriga a maior biodiversidade do planeta e, ao mesmo tempo, enfrenta taxas preocupantes de degradação ambiental.
A principal ameaça às espécies nativas não é apenas a caça ou o tráfico, mas a perda de habitat. Quando extensas áreas de vegetação nativa são substituídas por monoculturas ou ocupações irregulares, rompe-se o equilíbrio ecológico que sustenta cadeias inteiras de vida. No Cerrado, por exemplo, segundo dados do MapBiomas, em 40 anos o bioma perdeu 28% de sua vegetação nativa. Parte significativa do que resta está em propriedades privadas e sujeita às regras do Código Florestal, que, conforme a região, permitem a supressão de até 80% da área da propriedade dentro dos limites legais. Esse contexto aumenta a pressão sobre os remanescentes e compromete a biodiversidade. Situação semelhante preocupa em áreas da Amazônia e do Pantanal, onde a redução da cobertura vegetal impacta diretamente a fauna.
Grandes extensões de monocultura, como soja e cana-de-açúcar, tendem a reduzir drasticamente a diversidade biológica, afetando insetos polinizadores, pequenos vertebrados e predadores de topo de cadeia. Sem abrigo e alimento, muitas espécies entram em declínio silencioso.
Nesse cenário, a preservação da fauna silvestre passa necessariamente pela recomposição e manutenção dos ecossistemas. Desde 2014, o Projeto Água Vida apoia iniciativas voltadas ao reflorestamento e à proteção de espécies ameaçadas, financiando ações, em todos os biomas brasileiros, por meio da comercialização de fotografias de natureza.
Entre as iniciativas estão a ampliação de viveiros de mudas nativas em diferentes regiões do país, fortalecendo organizações locais e contribuindo para a recuperação de áreas degradadas. No Mato Grosso do Sul, o estímulo ao plantio de espécies como o manduvi contribui para ampliar a oferta de abrigo e alimento às araras do Pantanal. Na região amazônica, o suporte a projetos de recuperação de margens de rios auxilia na preservação de quelônios e de outras espécies aquáticas. No Cerrado, a coleta e semeadura de sementes nativas busca recompor áreas essenciais para a sobrevivência da fauna local.
Espécies como o Sauim-de-coleira, primata endêmico da região de Manaus e classificado como ameaçado, e a Ararajuba, ave-símbolo das cores nacionais e criticamente ameaçada, dependem diretamente da conservação de seus habitats. Proteger esses animais significa assegurar que florestas, cerrados e áreas úmidas continuem existindo de forma equilibrada.
A proteção da fauna silvestre não pode ser tratada como pauta secundária. Exige políticas públicas consistentes, planejamento territorial responsável, fiscalização efetiva e incentivo a iniciativas de recuperação ambiental. Também demanda maior transparência na divulgação de dados sobre espécies ameaçadas e das medidas adotadas para sua proteção.
Celebrar o Dia Mundial dos Animais, portanto, vai além do simbolismo. É reconhecer que o futuro da biodiversidade brasileira depende das decisões tomadas hoje, tanto pelo poder público quanto pela sociedade.
* Mário Barila é fotógrafo e ambientalista, fundador do Projeto Água Vida, de apoio e promoção de ações socioambientais.