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Opinião: Depois da emergência, o maior desafio é governar o futuro

Publicado em 05/08/2026 às 17:03 edição Lenilde Pacheco


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Cláudia Pitta: é preciso transformar uma tragédia em aprendizado institucional permanente - Foto: Divulgação

Por Cláudia Pitta*

Eventos climáticos extremos deixaram de ser uma hipótese distante para se tornarem uma realidade recorrente. E a maior vulnerabilidade das sociedades diante dessa nova realidade nem sempre está na ausência de recursos, tecnologia ou conhecimento técnico. Está, muitas vezes, na dificuldade de transformar a experiência da crise em capacidade permanente de adaptação. Eventos extremos não são desastres; desastre é não estarmos preparados para eles. Essa é, antes de tudo, uma questão de governança.

Durante décadas, a adaptação às mudanças climáticas foi tratada predominantemente como um desafio de infraestrutura, engenharia e financiamento. Essas dimensões continuam essenciais. Mas, à medida que os eventos extremos se tornam mais frequentes e seus impactos mais abrangentes, torna-se evidente que obras, isoladamente, não produzem resiliência.

Resiliência depende da capacidade de coordenar instituições, preservar decisões de longo prazo e construir mecanismos que sobrevivam às mudanças de governo, às disputas políticas e ao desaparecimento do senso de urgência que costuma acompanhar as grandes tragédias. Ela depende, por óbvio, de sistemas físicos de proteção contra inundações e estiagem, mas também de infraestrutura econômica e social que assegure a sobrevivência digna e o desenvolvimento sustentável.

É justamente nesse ponto que a governança passa a ocupar um papel central.

Essa visão ganhou forma durante a Semana de Ação Climática de Porto Alegre, entre tantas realizações, conexões e debates relevantes, com o lançamento da Carta pela Resiliência e Ação Climática — Da emergência à transformação: um compromisso com um futuro resiliente para o Rio Grande do Sul. Fruto de uma construção conjunta entre a CoalizãoRS, o Ministério Público do Rio Grande do Sul, o Tecnopuc, o Instituto Caldeira e o Pacto Alegre, o documento reúne quinze prioridades para a consolidação de uma agenda permanente de adaptação climática. Mais do que um conjunto de recomendações, a Carta propõe uma mudança de paradigma: transformar a resiliência climática em política de Estado e fortalecer mecanismos de governança capazes de integrar diferentes atores na construção de respostas duradouras para desafios que nenhuma instituição consegue enfrentar sozinha.

Na mesma direção, a CoalizãoRS entregou aos pré-candidatos ao Governo do Estado uma Carta de Compromisso com a Agenda de Resiliência Climática para o Rio Grande do Sul, convidando-os a assumir publicamente essa agenda como prioridade de governo. Organizadas em três eixos — governança e transparência, planejamento e financiamento, e prevenção e resposta a eventos climáticos —, as propostas procuram assegurar que a resiliência seja incorporada aos programas de governo e às decisões do próximo ciclo político. Ao buscar o compromisso dos futuros governantes antes mesmo do período eleitoral, a iniciativa traduz em ação um princípio essencial da governança climática: políticas capazes de proteger vidas e territórios precisam nascer com vocação de permanência e atravessar governos, mandatos e disputas partidárias.

A relevância dessa agenda vai muito além do Rio Grande do Sul.

Mudanças climáticas são um exemplo claro daquilo que chamamos de desafio sistêmico: seus impactos atravessam setores, fronteiras administrativas e mandatos políticos. Nenhuma organização, empresa ou governo possui, isoladamente, os recursos, as competências ou a legitimidade necessários para responder sozinho a esse tipo de problema.

Essa constatação exige uma mudança importante na própria ideia de governança.

Tradicionalmente, governança significou criar mecanismos para orientar decisões dentro das organizações. Hoje, desafios dessa natureza exigem algo diferente: modelos capazes de coordenar decisões entre organizações.

É nesse contexto que a governança multistakeholder ganha relevância. Mais do que ampliar espaços de participação, ela busca construir estruturas permanentes de cooperação entre atores que possuem responsabilidades, incentivos e perspectivas distintas. Seu objetivo não é eliminar conflitos, algo impossível em sociedades democráticas, mas criar condições para que interesses diversos possam convergir em torno de objetivos públicos de longo prazo.

Na prática, isso significa reconhecer que adaptação climática depende tanto da qualidade das instituições quanto da qualidade das obras que elas realizam.

Esse talvez seja um dos aspectos menos discutidos da agenda climática.

Costumamos imaginar que o principal desafio está na escassez de recursos ou na ausência de soluções tecnológicas. No entanto, como sintetiza a Carta pela Resiliência e Ação Climática, “o conhecimento existe”, “os recursos existem”, “as experiências existem” e que o desafio agora é conectá-los.

Sob a perspectiva das ciências comportamentais, essa dificuldade não surpreende.

Seres humanos respondem com muito mais intensidade ao risco imediato do que às ameaças futuras. Depois que a emergência passa, nossa atenção tende a migrar para novas prioridades. Instituições não são imunes a esse comportamento. Também elas sofrem os efeitos da descontinuidade, dos ciclos políticos e da perda gradual da memória coletiva.

É justamente por isso que a governança importa.

Sua função não é apenas organizar estruturas ou distribuir responsabilidades. É criar mecanismos capazes de proteger decisões estratégicas da volatilidade do curto prazo, preservando compromissos coletivos mesmo quando a urgência deixa de ocupar as manchetes.

O verdadeiro teste da reconstrução do Rio Grande do Sul não será medido apenas pelo número de obras concluídas ou pelos recursos investidos. Será medido pela capacidade de transformar uma tragédia sem precedentes em aprendizado institucional permanente.

Porque os desastres climáticos continuarão acontecendo.

A pergunta que permanecerá é outra: estaremos reconstruindo apenas aquilo que foi perdido ou construindo instituições capazes de reduzir nossa instabilidade diante do que ainda está por vir?

*   Cláudia Pitta é professora de Ética Organizacional e ESG; diretora jurídica e de governança da CoalizãoRS