ICMBio avança em proposta para a proteção de ecossistemas marinhos
Publicado em 08/11/2026 às 10:06 edição Lenilde Pacheco
Proteção do ecossistema: manutenção do corredor ecológico para tartarugas e aves - Foto: Bruna Roveri/ICMBio Divulgação
Repórter: Rafael Cardoso, da Agência Brasil
Sob as águas do Rio Grande do Norte e do Ceará, repousam montanhas gigantes de até 5 mil metros de altura. Elas superam o Pico da Neblina, no Amazonas, a maior formação terrestre do país, que tem cerca de 3 mil metros, e são moradia para mais de 100 espécies de peixes, tubarões, corais e esponjas.
Os chamados Montes Oceânicos também funcionam como corredor ecológico para tartarugas, aves e outras espécies migratórias.
A proteção desses ecossistemas avançou para mais uma etapa nesta sexta-feira (6), com a realização da primeira consulta pública do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Natal. A próxima ocorrerá na segunda-feira (9), em Fortaleza.
As reuniões servem para que diferentes instituições e representantes da sociedade se manifestem sobre a proposta de criação de três Unidades de Conservação (UC): os Refúgios de Vida Silvestre (REVIS) Cadeia Fernando de Noronha e Cadeia Norte do Brasil, e a Área de Proteção Ambiental (APA) dos Montes Oceânicos. Juntas, elas somam pouco mais de 18 milhões de hectares (18.219.322), ou 180 mil km².
Os estudos para criação das UCs começaram em 2016 e foram desenvolvidos por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE/ICMBio) e do Instituto Recifes Costeiros (IRCOS).
A atividade com maior impacto sobre a biodiversidade é a pesca industrial, feita por embarcações de médio e grande porte, com foco nos atuns. Estima-se que o setor movimente entre R$ 100 milhões e R$ 127 milhões por ano.
O coordenador do CEPENE, Leonardo Messias, destaca que há um histórico de danos provocados por este tipo de pesca.
“Operações de arrasto de fundo realizadas no passado causaram uma perda estimada de até 85% da biomassa de peixes de topo em alguns bancos. É um impacto que se reflete até hoje no fundo do mar”, diz Leonardo.
Outra potencial ameaça aos ecossistemas é o setor de energia. Há sobreposição entre as UCs propostas e blocos ofertados para exploração de petróleo. Porém, os pesquisadores dizem que, por terem formação geológica vulcânica e não sedimentar, a extração nos montes oceânicos é praticamente inviável do ponto de vista econômico e tecnológico.
No caso da mineração marinha, há projetos de extração de fosfato para fertilizantes no topo dos montes. O que, para a coordenadora-geral de criação e planejamento das UCs do ICMBio, Kelen Leite, representa um risco ecológico maior.
Ela diz que há negociações diretamente com o Ministério de Minas e Energia (MME) para que a conservação seja priorizada em relação aos interesses econômicos.
“A mineração marinha acaba com tudo. Não tem como regenerar rodolitos e corais destruídos. A mineração é incompatível com a conservação e com a manutenção dos estoques pesqueiros. Aí, é uma escolha de país: é a biodiversidade e a pesca ou a produção de adubo?”, indaga Kelen.
No caso das unidades de conservação do tipo REVIS, de proteção integral, nenhuma destas atividades será permitida. No caso da APA, mais flexível, será necessária uma análise de viabilidade socioambiental para autorizar qualquer atividade econômica.
Participação social
Durante a consulta pública desta sexta-feira, a assessora jurídica da Federação dos Pescadores do Rio Grande do Norte (Fepern), Adriana Silva, expressou a preocupação de que as UCs interfiram no trabalho e na renda da categoria.