Brasil amplia mercado do algodão, mas fibras sintéticas ainda avançam
Publicado em 14/10/2026 às 11:03 edição Lenilde Pacheco
Setor conquistou escala, qualidade e competitividade; demonstra também a relevância da sustentabilidade - Foto: Abrapa/Divulgação
Maior exportador mundial de algodão, o Brasil responde atualmente por 34% do comércio global da fibra, ante 7% há menos de uma década. Na safra 2025/2026, as exportações somaram 3,374 milhões de toneladas, com receita de US$ 5,295 bilhões, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea). Para o ciclo 2026/2027, a entidade projeta embarques de aproximadamente 3,4 milhões de toneladas.
A produção brasileira também avançou em eficiência. Na safra 2025/2026, o país colheu 4,144 milhões de toneladas de pluma, com produtividade média de 2.076 quilos por hectare, alta de 6% em relação ao ciclo anterior, apesar da redução de 8% na área plantada.
O avanço brasileiro ocorre em um mercado mundial no qual o algodão perde espaço para as fibras sintéticas. Nas últimas duas décadas, o consumo global de fibras passou de 69 milhões para 124 milhões de toneladas, enquanto o de algodão permaneceu próximo de 26 milhões. Com isso, a participação da fibra natural caiu de 37%, em 2006, para 21%, em 2026.
Os números foram apresentados durante o Cotton Brazil Luncheon, realizado na terça-feira (13), em Istambul, na Turquia, antes da programação do ICA Trade Event 2026. No encontro, representantes da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) defenderam o fortalecimento da fibra natural com base em competitividade, qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade.
A biodegradabilidade é uma característica relevante do algodão diante dos desafios ambientais associados aos materiais sintéticos, que podem liberar microplásticos durante o uso e a lavagem dos tecidos. A comparação entre fibras, porém, exige considerar os impactos de todo o ciclo de vida, incluindo cultivo, processamento, durabilidade e descarte.
Rastreabilidade do campo ao produto final
A estratégia brasileira para ampliar a presença do algodão na indústria têxtil inclui o programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR), a classificação instrumental da fibra e sistemas de rastreabilidade. Essas ferramentas permitem reunir informações sobre a origem, a qualidade e as práticas adotadas na produção, oferecendo maior transparência à indústria e às marcas.
A expansão da oferta brasileira também contribuiu para sustentar o abastecimento mundial. Segundo dados apresentados pela Abrapa, enquanto a produção dos demais países recuou 3,6 milhões de toneladas nas últimas duas décadas, a brasileira cresceu 3,1 milhões.
O desafio, agora, é transformar os atributos ambientais da fibra natural em informações verificáveis ao longo de toda a cadeia produtiva, da lavoura ao processamento industrial e ao destino final dos tecidos. Isso exige atenção ao uso de recursos naturais, às práticas agrícolas e aos impactos associados à fabricação e ao descarte.
A ampliação do espaço do algodão no mercado mundial depende, portanto, não apenas de escala, qualidade e competitividade, mas também da capacidade de demonstrar seus atributos de sustentabilidade. Dados científicos sobre biodegradabilidade, impactos ambientais e liberação de microplásticos podem contribuir para decisões mais bem fundamentadas por parte da indústria, dos formuladores de políticas públicas e dos consumidores.