Ação humana domina emissões de carbono da Amazônia, mostra estudo
Publicado em 22/10/2026 às 16:04 edição Lenilde Pacheco
Pesquisa publicada na Nature analisou 15 anos de medições aéreas e identificou o peso do desmatamento - Foto: Ibama
Um estudo liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), publicado nesta quarta-feira (dia 21) na revista científica Nature, concluiu que o desmatamento e as queimadas são os principais fatores associados às emissões de carbono da Amazônia brasileira. As secas extremas, intensificadas por fenômenos climáticos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, agravam os impactos das atividades humanas sobre a floresta.
Intitulado Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts (Emissões de carbono da Amazônia causadas pelas ações humanas e amplificadas pelas secas), o artigo se baseia em 15 anos de medições aéreas de gases de efeito estufa, realizadas entre 2010 e 2024. Os resultados evidenciam o enfraquecimento da capacidade da floresta de absorver carbono da atmosfera e a influência crescente da degradação florestal sobre as condições climáticas regionais.
A perda de cobertura vegetal compromete o regime de chuvas, eleva as temperaturas e prolonga a estação seca. Essas mudanças aumentam a vulnerabilidade das árvores à mortalidade e da vegetação ao fogo, criando um ciclo que favorece novas perdas florestais e amplia as emissões.
Variações nas emissões
A equipe utilizou dados do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), do INPE, coletados em voos de aviões de pequeno porte em quatro localidades representativas da Amazônia brasileira. As medições de dióxido de carbono (CO₂) e monóxido de carbono (CO) foram cruzadas com informações sobre desmatamento, queimadas, precipitação, temperatura do ar e indicadores das temperaturas da superfície do mar nos oceanos Pacífico equatorial e Atlântico tropical norte.
A análise identificou diferenças expressivas entre regiões e anos. No período estudado, o balanço de carbono variou de -0,12 a 0,75 petagrama de carbono por ano (PgC/ano). A média foi de 0,32 PgC/ano, equivalente a aproximadamente 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano.
As queimadas responderam, em média, por emissões de 0,40 PgC/ano, ou cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ anuais. A absorção de carbono pela floresta não foi suficiente para compensar as emissões, resultando em um balanço positivo de carbono.
Desmatamento e queimadas
A análise estatística agrupou os anos em três conjuntos, de acordo com as condições climáticas, a intensidade das atividades humanas e o balanço de carbono. A comparação permitiu avaliar como o desmatamento e as queimadas influenciaram as emissões em diferentes cenários climáticos.
Anos mais chuvosos
O primeiro grupo abrange 2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018. A precipitação média anual foi de 2.413 milímetros, enquanto a temperatura média no pico da estação seca, entre agosto e outubro, ficou em 26,2 °C.
Nesse conjunto, o desmatamento médio foi de 6.389 km² e a área queimada alcançou 55.115 km². O balanço de carbono foi de 0,11 PgC/ano, o menor entre os três grupos.
O segundo grupo reúne 2019, 2020, 2021 e 2022. Em comparação com o primeiro, o desmatamento aumentou 97%, para 12.580 km², e a área queimada cresceu 25%, atingindo 68.747 km².
O balanço médio de carbono chegou a 0,43 PgC/ano, equivalente a aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. A precipitação média anual foi de 2.280 milímetros, e a temperatura no pico da estação seca, de 26,3 °C — valores próximos aos registrados no primeiro grupo.
O aumento das emissões, mesmo sem condições de estresse climático tão intensas quanto as observadas no terceiro grupo, reforça a importância das atividades humanas no balanço de carbono da Amazônia.
Secas extremas agravam os impactos
O terceiro grupo compreende 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos marcados por condições climáticas extremas. A precipitação média anual foi de 2.105 milímetros, e a temperatura no pico da estação seca chegou a 27,3 °C, a mais alta entre os três conjuntos.
A área queimada atingiu 105.819 km², enquanto o desmatamento médio foi de 7.812 km². O balanço de carbono alcançou 0,49 PgC/ano, equivalente a aproximadamente 1,80 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, o maior valor entre os grupos.
Embora a seca tenha agravado as emissões, o estudo identificou a predominância das atividades humanas. Segundo a pesquisa, 98% das queimadas estavam associadas à ação humana. O desmatamento, o uso do fogo e as condições climáticas extremas atuaram conjuntamente, ampliando os danos à floresta.
Desmatamento reduz chuvas
A pesquisa também aponta alterações significativas nas condições climáticas da Amazônia ao longo de 46 anos. Segundo o estudo, o desmatamento e a degradação florestal de longo prazo contribuíram para uma redução de 8% na precipitação anual e de 20% durante o pico da estação seca, entre agosto e outubro.
No mesmo período, a temperatura média anual aumentou 1,13 °C. Durante o pico da estação seca, a elevação chegou a 1,81 °C.
Essas mudanças comprometem as condições de manutenção da floresta tropical úmida. Com menos vegetação, a região tende a perder capacidade de reciclar umidade, enquanto temperaturas mais altas e períodos secos prolongados favorecem a ocorrência e a propagação do fogo. O resultado é um processo de retroalimentação que pode ampliar a degradação florestal.
Os resultados reforçam a necessidade de conter o desmatamento e o uso do fogo, além de recuperar áreas degradadas. O estudo destaca a importância de políticas de desmatamento zero, medidas efetivas de prevenção e combate às queimadas e programas de restauração florestal para preservar a capacidade da Amazônia de absorver carbono.
Luciana Gatti
Pesquisadora titular do INPE e coordenadora do projeto CARBAM, Luciana Gatti tem quase 40 anos de atuação científica, com pesquisas dedicadas às emissões e à absorção de carbono na Amazônia e ao papel da floresta no ciclo global do carbono.
Este é o quarto artigo publicado na Nature com a cientista brasileira como autora principal. O trabalho amplia a base de evidências sobre a influência combinada das atividades humanas e das mudanças climáticas no balanço de carbono da Amazônia, tema central para a compreensão das mudanças ambientais globais.
Leia o artigo científico: Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts — Nature