Reúso de água ganha espaço na indústria diante do estresse hídrico
Publicado em 24/09/2026 às 09:08 edição Lenilde Pacheco
Na índústria, não existe uma taxa universal de reaproveitamento da água; varia conforme o setor - Foto: Defesa Civil/RS
A seca voltou a avançar no Brasil. A atualização mais recente do Monitor de Secas, divulgada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), mostra que a área afetada pelo fenômeno passou de 45% para 52% do território nacional entre junho e julho de 2026. Em números absolutos, o avanço representa um aumento de 3,79 milhões para 4,43 milhões de quilômetros quadrados.
O cenário reforça uma questão que vai além da redução do consumo: quanto da água utilizada pela indústria pode retornar ao próprio processo produtivo? Em 2024, o setor respondeu por 9,9% da retirada de água destinada aos usos consuntivos no país, com uma vazão estimada em 207,3 metros cúbicos por segundo, segundo dados divulgados pela ANA em agosto de 2026.
Reúso começa com o mapeamento do consumo
Não há um percentual único de água passível de reúso na indústria. O potencial varia conforme o segmento, a configuração da planta, a qualidade exigida em cada etapa do processo e as características dos efluentes gerados.
O primeiro passo é conhecer o percurso da água dentro da fábrica. Um balanço hídrico permite identificar pontos de entrada e consumo, volumes descartados e correntes que podem ser recirculadas ou reutilizadas. Segundo a ANA, esse mapeamento também ajuda a localizar perdas e oportunidades de redução, recirculação e reúso.
“Antes de pensar em simplesmente tratar todo o efluente para reutilizá-lo, é preciso entender onde existe demanda e qual qualidade de água aquela aplicação realmente exige. Em alguns pontos, um tratamento menos complexo pode ser suficiente. Em outros, a presença de sais, matérias orgânicas ou contaminantes específicos pode exigir uma estratégia completamente diferente”, afirma João Pedro L. Martini, diretor de Negócios de Operações da Conatus.
Qualidade determina o destino da água
A água utilizada em torres de resfriamento, sistemas de lavagem, processos produtivos e operações auxiliares não precisa, necessariamente, apresentar os mesmos parâmetros de qualidade. Por isso, estratégias baseadas no conceito de água adequada a cada uso podem ampliar as possibilidades de reúso dentro das fábricas.
Turbidez, sólidos suspensos, carga orgânica, óleos, dureza, condutividade, pH, microrganismos e substâncias específicas de cada atividade estão entre os fatores que influenciam essa definição. Dependendo da composição do efluente e da finalidade pretendida, a água pode ser reutilizada diretamente, exigir tratamento complementar ou não ser indicada para determinada aplicação.
“Em correntes nas quais a remoção de partículas e a redução da turbidez fazem parte do tratamento necessário, processos de coagulação podem entrar nessa estratégia. O policloreto de alumínio, por exemplo, pode ser aplicado no tratamento de águas e efluentes, mas a escolha do coagulante e da dosagem precisa partir de ensaios e da caracterização da água, e não de uma solução padronizada para todos os casos”, explica José Renato Martini, diretor de Tecnologias e Mercado da Conatus.
Diferentes níveis de reúso
A realidade das empresas mostra que não existe uma taxa universal de reaproveitamento. Em 2025, uma unidade industrial da RHI Magnesita, na Bahia, informou índice de 90% de recirculação e reúso de água. No mesmo período, a Frimesa reportou que pouco mais de 10% da água utilizada em suas operações veio de reúso.
Os resultados, embora bastante distintos, refletem processos produtivos, necessidades operacionais e estratégias hídricas diferentes. Mais do que estabelecer um percentual único, os exemplos mostram que o potencial de reúso precisa ser avaliado a partir das características de cada operação.
A discussão também avança no campo regulatório. Em setembro de 2026, permanecia em análise no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) uma proposta para estabelecer parâmetros mínimos de qualidade para a água de reúso, após uma série de discussões técnicas realizadas ao longo do ano.
Diante do avanço da seca e da maior pressão sobre os recursos hídricos, reduzir a dependência de água nova deixa de ser apenas uma iniciativa ambiental. Em regiões sujeitas a restrições de oferta, saber quanto da água pode permanecer em circulação dentro da própria fábrica passa a integrar o planejamento operacional e a estratégia de segurança hídrica da indústria.