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Aves da Chapada Diamantina sentem impacto das mudanças climáticas

Publicado em 13/05/2026 às 17:09 edição Lenilde Pacheco


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Estudo mostra que espécies das áreas mais elevadas podem ficar sem rota de escape - Foto: Divulgação

Um novo estudo realizado na Chapada Diamantina (BA) e publicado pela revista científica Biodiversity and Conservation, mostra que o clima, especialmente a temperatura, desempenha um papel central na organização das comunidades de aves ao longo das montanhas da região. Os resultados indicam que, com o aumento da altitude e a redução das temperaturas, ocorrem mudanças consistentes não apenas no número de espécies, mas também na forma como essas espécies contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

A pesquisa analisou mais de 170 espécies ao longo de um gradiente altitudinal — ou seja, uma faixa de variação ambiental ao longo da montanha, onde as condições mudam com a altitude — no Parque Nacional da Chapada Diamantina, com amostragens realizadas entre 400 e 1300 metros de altitude. As áreas mais quentes concentram maior número de espécies e maior diversidade de funções ecológicas. Já as regiões mais elevadas evidencia sua elevada relevância para a conservação.

Um dos pontos centrais do estudo é a chamada diversidade funcional (ou “taxonomia funcional”), que vai além da simples contagem de espécies. Esse conceito considera características ecológicas das aves, como dieta, tamanho corporal, comportamento e uso de habitat, e como essas características determinam os papéis que cada espécie desempenha no ambiente. Em outras palavras, não importa apenas quantas espécies existem, mas o que elas fazem no ecossistema. Alterações nessa diversidade funcional podem comprometer processos essenciais, como dispersão de sementes, polinização e controle de insetos.

Os resultados ganham ainda mais importância no contexto do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD), uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com as Fundações de Amparo à Pesquisa dos estados, incluindo a Fapesb. O estudo integra o projeto “Biodiversidade nas montanhas: desvendando padrões e processos ecológicos e evolutivos da biota da Chapada Diamantina – fase dois”, que monitora a biodiversidade e suas respostas às mudanças ambientais ao longo do tempo. Essa abordagem de longo prazo é fundamental para prever como o aquecimento global poderá impactar as aves da região nas próximas décadas.

A autora do estudo, Maisa Teixeira Alves, bióloga e doutoranda em Biodiversidade e Evolução pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma que os resultados ajudam a entender como comunidades biológicas podem responder às rápidas transformações ambientais em curso. “Nesse contexto, a conservação de ecossistemas montanhosos deixa de ser apenas uma questão ecológica e passa a representar uma estratégia central para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade”.

Para o coordenador do projeto, Dr. Mirco Solé, professor da UESC, os resultados trazem um alerta que vai além das aves. “Este estudo foi realizado com aves, mas é muito provável que padrões semelhantes ocorram em diversos outros grupos de vertebrados”. O professor explica que o alto das montanhas é a principal rota de escape diante do aquecimento. No entanto, “as montanhas da Chapada Diamantina estão longe de alcançar altitudes como as dos Andes. Em algum momento, as espécies atingem o topo e, se as temperaturas continuarem a subir, passam a não ter mais para onde ir — o que pode levar ao seu desaparecimento local”, observa.

Maisa destaca ainda que esse cenário é especialmente preocupante em regiões como a Chapada Diamantina porque abriga aves de espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. A pesquisadora cita como exemplos o Papa-formiga-do-sincorá (Formicivora grantsaui), o Beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella) e o Gruneiro ou Tapaculo-da-chapada-diamantina (Scytalopus diamantinensis), “cuja persistência pode ser seriamente comprometida diante do avanço das mudanças climáticas”.

A Biodiversity and Conservation é uma revista científica internacional de alto prestígio, publicada pela Springer Nature e focada na pesquisa sobre todos os aspectos da diversidade biológica, sua proteção, gestão e uso sustentável. O estudo completo pode ser acessado neste link.