Pesquisadores da UFSC mostram aumento do volume de plásticos no oceano
Publicado em 08/07/2024 às 08:07 edição Lenilde Pacheco
Luísa Santiago: solução está na expansão da economia circular; limpeza das praias não basta - Foto: Gov Federal
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) revisaram 181 artigos científicos para analisar a poluição na costa Sul-Americana do Oceano Atlântico, revelando a distribuição, características e impactos dos detritos plásticos no mar. Este estudo destacou que a costa Sul-Americana é a mais poluída entre todos os oceanos, e também examinou as políticas e iniciativas legais para combater esta ameaça ambiental. Em média, 70% dos resíduos coletados nas praias são plásticos, sendo mais prevalentes em praias de fácil acesso e próximas a áreas urbanas, destacando a necessidade urgente de ações para mitigar essa poluição.
O estudo A review of plastic debris in the South American Atlantic Ocean coast – Distribution, characteristics, policies and legal aspects foi publicado na revista Science of the Total Environment em maio deste ano por integrantes do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental (UFSC) e do Laboratório de Pesquisas em Resíduos Sólidos (UFSC).
De acordo com o primeiro autor do artigo, o mestrando Igor Marcon Belli – orientado por Armando Borges de Castilhos Júnior e coorientado por Davide Franco, ambos professores do PPGEA –, a pesquisa é a primeira análise regional que avalia tanto macro quanto microplásticos em águas costeiras, sedimentos e fauna marinha, apontando as áreas mais afetadas e as características desses materiais. O estudo também identificou as legislações e iniciativas não governamentais para combater a poluição por plástico na região.
Condição crítica
“As principais organizações internacionais sobre o meio ambiente afirmam que a presença de materiais plásticos nos mares e oceanos já se estabeleceu como uma questão ambiental crítica. Macroplásticos, que incluem itens do dia a dia como sacolas, garrafas, canudos e outros recipientes descartáveis, frequentemente acabam em ambientes marinhos devido à gestão inadequada em zonas urbanas ou como resultado de atividades no mar. Com o tempo, esses materiais podem se fragmentar em partículas menores, os microplásticos, representando um desafio crescente para a saúde dos ecossistemas marinhos”, afirma Belli.
Entre 2010 e 2017, o estudo observou um aumento de dez vezes na ingestão de detritos plásticos por tartarugas, peixes, aves e mamíferos marinhos, causando sérios problemas de saúde e ameaça à vida desses animais. A tartaruga-verde, uma espécie ameaçada de extinção, foi especialmente afetada, com 93% dos indivíduos encontrados na costa brasileira tendo ingerido detritos plásticos, como sacolas, que podem ser confundidos com alimento (leia mais sobre o estudo aqui).
Ao comentar os resultados da pesquisa realizada pela UFSC, a diretora executiva para a Fundação Ellen MacArthur na América Latina, Luísa Santiago, observou que os dados apresentados pelo estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) corroboram com as previsões de pesquisas anteriores sobre o impacto do plástico nos oceanos. Um exemplo alarmante é a estimativa de que, até 2050, o volume de plástico nos oceanos poderá superar o de peixes. Além disso, o estudo “Breaking the Plastics Wave”, projetou que até 2040 a quantidade de plástico colocado no mercado dobrará, triplicando a quantidade que vaza para o meio ambiente e quadruplicando os estoques de plástico nos oceanos, enfatizou.
Economia Circular
“A situação é grave e a necessidade de soluções eficazes é urgente. A grande maioria desses plásticos que param nos oceanos são de embalagens de produtos. Portanto, para resolver a crise, precisamos de uma abordagem de economia circular, que considera toda a cadeia do plástico, começando pelo design dos produtos e dos modelos de negócio. O problema não será resolvido com limpeza de praias e reciclagem”, assinalou Luísa.
Para avançar com soluções sustentáveis, explica ela, os produtos precisam ser projetados e redesenhados para eliminar todos os plásticos desnecessários e problemáticos, como os plásticos de uso único, que vão parar no ambiente após muito pouco tempo de utilidade. Além disso, para os plásticos que são necessários, precisamos inovar, para que todos eles sejam reutilizáveis, recicláveis e compostáveis.
Por fim, é crucial ampliar os sistemas de reuso e reciclagem para manter os itens plásticos necessários circulando na economia. Paralelamente, políticas governamentais devem facilitar essas estratégias, estimulando o design de produtos e sistemas alinhados à economia circular, a inovação, ampliando os sistemas de coleta e circulação e desincentivando produtos e práticas que geram poluição plástica.