img
img

Avanço do mar pode atingir 12% de cidade no litoral da Paraíba, mostra pesquisa

Publicado em 04/03/2024 às 07:46 edição Lenilde Pacheco


img

Estudo da UFPB aponta as praias mais afetadas: Jacumã, Coqueirinho, Tambaba e Carapibus - Foto: Vinícius Vieira/UFPB

A zona costeira do município do Conde, na Região Metropolitana de João Pessoa, registra significativo avanço do mar. O oceano ocupou cerca de 9 metros (27 cm/ano) nos últimos 37 anos, e a taxa de erosão marinha se acelerou entre os anos de 2015 e 2022. Os fenômenos têm relação direta com o aumento do nível das águas marinhas, que, se alcançar os 10 metros de elevação, poderá inundar aproximadamente 12% da área do município.

É o que afirmam pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em um artigo publicado neste mês de janeiro no periódico internacional Science of The Total Environment, editado pela Elsevier, em que são analisadas mudanças históricas e projeções futuras da linha costeira do município.

Os locais mais afetados com a erosão neste período são alguns dos cartões postais mais conhecidos do Estado da Paraíba, como as praias de Jacumã, Coqueirinho, Tambaba, Carapibus, Amor e Arapuca, e a tendência para as próximas duas décadas (2022-2032 e 2032-2042) é de intensificação da atividade erosiva nestas regiões.

No estudo, também foram feitas algumas projeções para o litoral do Conde em diferentes cenários (1, 2, 5 e 10 metros) de subida do nível do mar, em consequência do derretimento do gelo polar por causa do aquecimento global e de outras mudanças climáticas.

Segundo os cientistas, a elevação das águas marinhas nos dois primeiros cenários (1 e 2 metros) pode ter efeitos moderados no curto prazo, limitando-se, por exemplo, a alterações de ecossistemas costeiros e entrada de água salgada em lençóis freáticos e áreas de água doce.

No entanto, nos dois piores – a elevação das águas marítimas em 5 ou 10 metros – os autores calculam que, a longo prazo, uma inundação significativa aconteceria, de cerca de 12% de toda a área do município, o que afetaria gravemente paisagens urbanas e agrícolas. Essa hipótese é classificada pelos pesquisadores como catastrófica, podendo causar deslocamentos forçados da população local, além de perdas ecológicas irreversíveis.

Metodologia

Para chegar a estas constatações, os pesquisadores empregaram uma metodologia com abordagens integradas, na qual foram utilizadas diversas ferramentas, como imagens de satélite, algoritmo para remoção de nuvens das imagens, sistema digital de análise costeira (DSAS, na sigla em inglês) e mapeamento de cobertura e do uso da terra, este último obtido a partir do Projeto MapBiomas.

Em seguida, após o refino dos dados, os cientistas realizaram dois tipos de análise da dinâmica costeira: de médio prazo, no qual os dados foram reunidos em três grupos de 10 anos (1985-1995, 1995-2005, 2005-2015) e um de sete anos (2015-2022), estudados separadamente; e de longo prazo, no qual os dados foram analisados sem recortes temporais. Foi a partir deste modelo que os pesquisadores também previram a dinâmica costeira do município para os próximos 20 anos, em que foi revelada a tendência de aceleração da erosão marinha.

Além da elevação das águas marinhas já em andamento, os autores atribuem o aumento erosivo à intensificação da ocupação costeira, devido à urbanização, à industrialização e ao turismo.

“Essa tendência é provavelmente acelerada por atividades humanas, ressaltando a interação entre processos naturais e antrópicos na dinâmica costeira, e representa um desafio significativo em áreas de alto valor turístico como o município do Conde”, afirma o professor Celso Santos, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (DECA) da UFPB e um dos autores do estudo.

Ainda conforme o docente, o estudo pode servir de alerta ao poder público, para que sejam desenvolvidas estratégias de gestão costeira proativas, a fim de minimizar os efeitos da erosão marinha e da elevação do nível do mar, protegendo, assim, sistemas naturais e humanos.

“Os resultados deste estudo fornecem insights valiosos não apenas para o município do Conde, mas também para outras regiões costeiras globalmente, reforçando a necessidade de uma ação climática urgente e coordenada para mitigar os impactos adversos da elevação do nível do mar”, conclui o pesquisador.

Da UFPB, além do professor Celso Santos, contribuíram para a elaboração do estudo os docentes Leonardo Vidal Batista, do Centro de Informática (CI), e Richarde Marques da Silva, do Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN). Gleycielle Rodrigues do Nascimento, atualmente egressa do curso de Engenharia Civil, e Luccas Matheus Torres Freitas, aluno de iniciação científica da Engenharia da Computação, também participaram do estudo.

Pesquisas na UFBA

Na capital baiana, esta temática também mobiliza pesquisadores do Laboratório de Estudos Costeiros do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutorandos, mestrandos e graduandos já percorreram cerca de 1500 quilômetros de litoral desde o extremo sul baiano até a fronteira de Alagoas com Pernambuco, e mais a costa da Paraíba.

Sob a coordenador do professor José Maria Landim Dominguez uma série de estudos geológicos e geofísicos foram realizadas por aproximadamente duas dezenas de pesquisadores – entre doutorandos, mestrandos e graduandos – no laboratório da UFBA. As pesquisas evidenciam que na Bahia 26% da costa tendem a “encolher”; em Sergipe, este percentual é de 21%; e na Paraíba, 42%.

Para chegar a esses índices, foram produzidas análises de imagens (de satélite e fotográficas) do passado para confronto com dados coletados entre os anos 2000 e 2017. Ao percorrer a costa, os pesquisadores coletaram amostras da areia e preencheram fichas de observação de características geológicas (como tamanho dos grãos, declividade do terreno, tipos de onda, características dos colchões rochosos e manguezais), a cada 1 quilômetro percorrido.

Esses período de estudos resultou em pelo menos oito livros, além de vários artigos, teses, dissertações e trabalhos de conclusão de graduação. O mais acessível ao público leigo talvez seja o Atlas de Erosão e Progradação do Litoral Brasileiro, organizado por Dieter Muehe e editado em 2006 pelo Ministério do Meio Ambiente para o qual Landim contribuiu como coautor dos capítulos sobre Bahia, Sergipe e Paraíba.

Fonte: UFPB