BNDES aprova R$ 25 milhões para ações de conservação de corais na Bahia
Publicado em 29/08/2026 às 10:27 edição Lenilde Pacheco
Projeto do WWF Brasil e Fundação Grupo Boticário, atuará em Abrolhos, Salvador e Ilha de Itaparica - Foto: ICMBio/Gov
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou nesta sexta-feira (28), durante o 9º Congresso Brasileiro de Oceanografia (CBO’2026), em Vitória (ES), a aprovação de dois projetos do BNDES Corais que terão ações na Bahia. As iniciativas são os projetos “De Manuel Luís a Trindade”, executado pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (FEST), fundação de apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e “A Virada dos Recifes de Coral – Traçando um Novo Rumo para a Conservação dos Corais no Brasil”, do WWF Brasil e da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
Na Bahia, os projetos vão desenvolver ações de monitoramento e restauração de recifes, conservação da biodiversidade, turismo sustentável, ciência cidadã e apoio a atividades econômicas associadas à conservação dos ambientes marinhos. As atividades ocorrerão principalmente na região de Abrolhos e no sul do estado, além de Salvador e Região Metropolitana, Ilha de Itaparica e Parque Marinho do Recife de Fora. Juntos, os dois projetos terão ações em nove estados, do Maranhão ao Espírito Santo, percorrendo 3 mil quilômetros da costa brasileira. Além da Bahia, as iniciativas alcançam Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Espírito Santo.
As duas operações somam R$ 50,87 milhões em investimentos, dos quais R$ 24,95 milhões são recursos do Fundo Socioambiental do BNDES. No projeto da FEST (De Manuel Luís a Trindade), o investimento total é de R$ 33,01 milhões, com R$ 16,36 milhões do BNDES e R$ 16,65 milhões de contrapartida com recursos do ICMBio, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
No projeto A Virada dos Recifes de Coral, o investimento total é de R$ 17,86 milhões, sendo R$ 8,59 milhões do BNDES, cerca de R$ 5,48 milhões do WWF Brasil e aproximadamente R$ 3,79 milhões da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os recursos do BNDES têm caráter não reembolsável e os dois projetos têm prazo de execução de 36 meses.
“A conservação dos recifes de coral envolve, ao mesmo tempo, proteção da biodiversidade, produção de conhecimento e atividades econômicas ligadas a esses ambientes. Os dois projetos atuam em diferentes pontos da costa e reúnem monitoramento, pesquisa, restauração e ações de uso sustentável. Com isso, ampliamos o conhecimento sobre esses ecossistemas e as ações voltadas à sua conservação e recuperação”, afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Monitoramento, pesca e turismo comunitário em Abrolhos – Pelo projeto “De Manuel Luís a Trindade”, que em seu conjunto alcançará 14 unidades de conservação, a Bahia terá ações na Reserva Extrativista Marinha do Corumbau, no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e na Reserva Extrativista de Cassurubá. O projeto também realizará mapeamento e caracterização de ambientes recifais na plataforma de Abrolhos e no Recife de Timbebas, com técnicas acústicas, sensoriamento remoto, imageamento e levantamentos de campo. Os estudos deverão produzir mapas de habitats, batimetria tridimensional, imagens e vídeos de alta resolução para apoiar a gestão e a conservação dessas áreas.
Na região de Abrolhos será estruturado um programa de monitoramento de budiões e outros peixes recifais ameaçados no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e nas reservas extrativistas de Cassurubá e Corumbau. A iniciativa envolverá pesquisadores, equipes das unidades de conservação, centros de pesquisa do ICMBio, pescadores beneficiários das reservas e comerciantes de pescado, com oficinas e campanhas de campo.
“O projeto apoiará a capacidade do ICMBio de monitorar os recifes de corais, identificar novas áreas de ocorrência e ampliar as ações de conservação e recuperação desses ecossistemas em Unidades de Conservação”, afirmou o analista Ambiental e coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Tartaruga Marinhas e Biodiversidade Marina do Leste (Centro TAMAR/ICMBio), João Carlos Thomé.
Outra frente será dedicada ao turismo de base comunitária e à ciência cidadã. Pescadores artesanais e moradores de Alcobaça, Caravelas e Nova Viçosa poderão participar de formação para atuar como condutores de visitantes e mergulhadores. Também estão previstas ações para credenciamento de embarcações e instalação de poitas destinadas a turismo, pesquisa e fiscalização, reduzindo o lançamento de âncoras sobre ambientes sensíveis.
O projeto desenvolverá ainda ações de prevenção, detecção precoce e manejo de espécies exóticas invasoras, como o coral-sol e o peixe-leão, além da ampliação do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade, o Programa Monitora, em unidades de conservação marinhas.
“A grande importância deste projeto está em transformar a sustentabilidade, o reconhecimento do ambiente e a recuperação em mais do que compromissos: em uma plataforma de inovação voltada ao equilíbrio ecológico, à valorização ambiental e à resiliência dos nossos ecossistemas”, disse a diretora da FEST, Patrícia Bourguignon.
Restauração, turismo sustentável e negócios de impacto – O projeto “A Virada dos Recifes de Coral”, do WWF Brasil e da Fundação Grupo Boticário, terá na Bahia frentes de pesquisa e restauração de corais, turismo sustentável e apoio a negócios de impacto. As atividades de restauração alcançarão a região de Abrolhos, o Parque Marinho do Recife de Fora e a Ilha de Itaparica.
As ações incluem identificação de áreas prioritárias para conservação e restauração e desenvolvimento de técnicas de recuperação ativa dos recifes. O projeto prevê pesquisas sobre reprodução de corais, crescimento larval assistido e outras tecnologias voltadas à recuperação desses ecossistemas.
“Os recifes de coral brasileiros estão nos mostrando que não temos mais tempo para trabalhar de forma fragmentada. Quando um recife se perde, não perdemos apenas a biodiversidade: aumentamos a vulnerabilidade das cidades e comunidades costeiras e comprometemos fontes de alimento e renda de milhares de pessoas. A Virada dos Recifes nasce com a ambição de ajudar o Brasil a proteger o que ainda está saudável, restaurar áreas degradadas e dar escala a uma agenda de conservação fundamental capaz de responder à velocidade das mudanças que já estamos vendo no oceano”, afirma Mauricio Voivodic, diretor-executivo do WWF-Brasil.
No território Abrolhos Terra e Mar, o projeto prevê ações de uso público e turismo sustentável no Parque Nacional Marinho de Abrolhos, na APA Ponta das Baleias, no Parque Nacional do Descobrimento, no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal e nas reservas extrativistas de Cassurubá, Corumbau e Canavieiras. Estão previstas capacitação de gestores e empreendedores locais, estruturação e divulgação de roteiros turísticos, melhoria da sinalização e desenvolvimento de materiais e tecnologias para visitação.
Entre as iniciativas está o Roteiro dos Corais, desenvolvido com o ICMBio e comunidades tradicionais do território. O roteiro reúne experiências associadas aos ambientes marinhos e aos modos de vida locais, incluindo a observação de baleias no Parque Nacional Marinho de Abrolhos. O projeto também apoiará pequenos negócios vinculados ao turismo sustentável e à conservação, com ações de acesso a mercados, governança local e desenvolvimento de atividades econômicas compatíveis com a proteção dos ecossistemas marinhos.
Salvador e Região Metropolitana – Outra frente do projeto do WWF Brasil e da Fundação Grupo Boticário será desenvolvida na Região Metropolitana de Salvador, especialmente nas bacias dos rios Joanes e Jacuípe, com identificação, seleção e apoio a negócios com impacto positivo sobre os recifes e os territórios costeiros. Os empreendimentos selecionados poderão receber capacitação, mentorias, apoio técnico e recursos financeiros para desenvolver suas atividades. Essa frente será articulada ao Movimento Viva Água, idealizado pela Fundação Grupo Boticário.
“As diferentes frentes do projeto em vários territórios do país se complementam com o objetivo comum de proteger os recifes de corais rasos brasileiros. Trabalhar com a repovoação de espécies e com a proteção das áreas existentes é tão importante quanto atuar em bacias hidrográficas de rios que desaguam nessas regiões e também podem comprometer a saúde desses ecossistemas essenciais”, afirmou a gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, Marion Silva.
BNDES Corais – Os dois projetos foram selecionados na chamada pública BNDES Corais, criada para reduzir perdas e promover a recuperação de corais rasos e bancos de corais ao longo de cerca de 3 mil quilômetros da costa brasileira, entre o Maranhão e o Espírito Santo. Com as novas operações, a iniciativa passa a reunir sete projetos aprovados, que somam cerca de R$ 108,5 milhões em investimentos, dos quais aproximadamente R$ 53,7 milhões correspondem a recursos do BNDES e R$ 54,9 milhões a contrapartidas dos parceiros.
Os recifes de coral abrigam mais de 25% da vida marinha e prestam serviços ambientais como proteção da costa, manutenção da biodiversidade, segurança alimentar e geração de renda para comunidades ligadas à pesca e ao turismo. Ao mesmo tempo, estão entre os ecossistemas mais vulneráveis às mudanças climáticas, ao aumento da temperatura dos oceanos, à poluição e a outras pressões sobre a zona costeira.
Os dois projetos também se relacionam a políticas e estratégias nacionais de conservação dos ambientes coralíneos. O “De Manuel Luís a Trindade” está alinhado ao Plano de Ação Nacional para Conservação de Ambientes Coralíneos (PAN Corais) e ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora). Já “A Virada dos Recifes de Coral”, do WWF Brasil e da Fundação Grupo Boticário, prevê apoio à implementação da Estratégia Nacional para Conservação de Recifes de Coral, em articulação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).