Natura capta R$ 700 milhões com debêntures vinculadas a metas ambientais
Publicado em 18/09/2026 às 07:27 edição Lenilde Pacheco
Operação anunciada amplia a estratégia de finanças sustentáveis iniciada pela Natura em 2021 - Foto: Pixabay
A Natura deu mais um passo para aproximar sua estratégia de sustentabilidade das decisões financeiras. Em operação coordenada pelo UBS BB, a companhia anunciou a emissão de R$ 700 milhões em debêntures vinculadas a metas de sustentabilidade (Sustainability-Linked Bond, ou SLB). O diferencial da operação está na associação entre as condições financeiras da dívida e o cumprimento de indicadores ambientais mensuráveis.
Segundo levantamento do UBS BB, a emissão é a primeira debênture corporativa no Brasil alinhada ao Sustainable Bonds for Nature: A Practitioner’s Guide, guia da International Capital Market Association (ICMA) lançado em 2025 para orientar instrumentos financeiros relacionados à conservação da natureza.
O indicador estabelecido pela Natura mede, em peso, a participação de plástico sustentável no total de plástico utilizado nas embalagens elegíveis de produtos acabados das marcas Natura e Avon. O cálculo considera plástico reciclado pós-consumo (PCR) e plástico de fonte renovável elegível.
A companhia parte de uma participação de 21% em 2022 e assumiu o compromisso de chegar a 43% em 2028 e 46% em 2029, mantendo a meta pública de alcançar 50% em 2030.
A operação amplia uma estratégia de finanças sustentáveis iniciada pela Natura em 2021, com sua primeira emissão de SLB vinculada à ampliação do uso de plástico reciclado pós-consumo nas embalagens. A empresa antecipou o objetivo de atingir 25% de PCR até 2026 e chegou a 30% já em 2025.
A trajetória inclui ainda uma emissão voltada ao uso de bioingredientes amazônicos, reforçando a conexão entre a captação de recursos e compromissos relacionados à biodiversidade e à economia regenerativa.
Com a nova operação, 65% das emissões de títulos da Natura já estão vinculadas a indicadores socioambientais, segundo a companhia. A empresa estabeleceu como objetivo chegar a 100%.
Sustentabilidade
O modelo adotado pela Natura é diferente de uma emissão tradicional de título verde. Em um SLB, os recursos não precisam necessariamente ser destinados a projetos ambientais específicos. O vínculo ocorre pelo estabelecimento de metas de desempenho socioambiental que podem afetar as condições financeiras da dívida caso não sejam cumpridas, conforme a estrutura definida para a emissão.
Na prática, o mecanismo transforma uma meta ambiental em compromisso também financeiro. Para uma empresa de bens de consumo, a redução da utilização de plástico fóssil virgem e a ampliação do uso de materiais reciclados ou renováveis passam a integrar não apenas sua estratégia ambiental, mas também sua relação com investidores e o mercado de capitais.
A iniciativa ganha relevância diante do desafio global de reduzir a geração de resíduos e a dependência de matérias-primas fósseis na produção de embalagens. Ao estabelecer metas quantitativas e prazos para ampliar a participação de plástico sustentável, a Natura cria parâmetros que podem ser acompanhados pelo mercado e verificados ao longo do tempo.
A companhia pretende avançar ainda mais nessa direção com sua Visão 2050, que estabelece o objetivo de se tornar uma empresa 100% regenerativa até 2050. Entre os compromissos está a utilização de plásticos de origem renovável e compostáveis em todo o portfólio.
“Assim, ao vincular as condições financeiras da emissão a metas mensuráveis de plástico sustentável, transformamos uma prioridade material de circularidade em compromisso financeiro”, afirma Silvia Vilas Boas, CFO da Natura.
Para Frederic de Mariz, Head of Sustainable Markets Advisory Americas do UBS BB, a operação demonstra a convergência entre sustentabilidade, operações e finanças em um mesmo instrumento.
Mais do que uma nova fonte de recursos, a emissão sinaliza uma mudança na forma como questões ambientais podem ser incorporadas à estrutura de financiamento das empresas. Ao atrelar parte de sua estratégia de capital a indicadores de circularidade e natureza, a Natura amplia o papel do mercado financeiro na transição para modelos de produção menos dependentes de recursos fósseis e mais alinhados à conservação dos ecossistemas.
Natura
Fundada em 1969, a Natura é uma multinacional brasileira de beleza e cuidados pessoais com atuação na América Latina. Há mais de 25 anos, mantém relacionamento com comunidades extrativistas da Amazônia e utiliza bioativos da sociobiodiversidade brasileira em seus produtos. Segundo a companhia, essa atuação gera benefícios para milhares de famílias e contribui para a conservação de 2,2 milhões de hectares de floresta.
A marca conta com cerca de 2,8 milhões de consultoras, além de operação por comércio eletrônico, aplicativo e mais de mil lojas.