img
img

No Extremo Sul da Bahia, restauração ecológica devolve água cristalina à Lagoa Azul

Publicado em 13/04/2026 às 14:27 edição Lenilde Pacheco


img

Laura: colhendo os bons resultados da ciência aplicada em áreas degradadas da Mata Atlântica

Por Laura Guimarães*

Este ano, o outono chegou com um lembrete incômodo: os reservatórios de água mais vazios nos mostram que a escassez não é capricho da natureza, mas um erro de gestão. No mundo corporativo, estamos acostumados a falar em Recuperação Judicial para salvar empresas da falência. Mas o que acontece quando o ativo que entra em colapso é o recurso mais básico de qualquer cadeia produtiva?

A resposta está no extremo sul da Bahia, onde hoje existe uma lagoa cristalina. Mas até poucos anos atrás, o cenário na região de Porto Seguro era de pastagens degradadas, além de lagoas e rios com margens devastadas. O uso intensivo da pecuária nessa região tornou o solo impermeável. Isso fazia com que a terra escorresse para dentro das lagoas, rios e nascentes a cada chuva, causando assoreamento.

Com a Lagoa Azul, uma nascente no centro de uma fazenda extenuada por décadas de uso para a pecuária, não foi diferente. Seu ecossistema havia entrado em falência: o acúmulo de sedimentos dentro da lagoa, empurrados pelas chuvas, impedia a entrada de luz e asfixiava a vida aquática.

A virada de chave ocorreu quando a Symbiosis iniciou um trabalho que vai muito além do simples plantio de mudas. Ao reintroduzir espécies nativas nobres na região perto da lagoa, a exemplo do jacarandá-da-bahia, a empresa buscou a funcionalidade das raízes para recuperar o solo e consequentemente, a lagoa foi beneficiada.

Na prática, as raízes quebram a compactação do solo causada pelos anos de pisoteio do gado. O jacarandá, assim como outras árvores centenárias cultivadas na fazenda, funciona como uma esponja, tornando a terra novamente porosa e capaz de respirar. Assim, o solo deixa de empurrar lama para as lagoas e passa a reter a umidade, filtrando impurezas e recarregando o lençol freático com uma precisão que nenhuma estação de tratamento artificial consegue imitar.

O resultado é visível: a lagoa está novamente cheia e cristalina não porque choveu mais, mas porque o solo aprendeu a guardar a chuva. Não foi milagre, foi ciência. Ao seu redor, a restauração da função hidrológica tem sido sustentada pelo cultivo de árvores matrizes a partir de exemplares centenários, que sobreviveram a séculos de exploração da Mata Atlântica.

Suas mudas carregam a memória genética da resistência. Portanto, coletar essas sementes e germiná-las em viveiros de alta tecnologia é o que garante que a floresta plantada hoje seja um ecossistema resiliente que impacta positivamente tudo ao seu redor, incluindo a pequena lagoa azul.

Este modelo de restauração, que se estende por mais de 5 mil hectares, atraiu capital de impacto, com investidores institucionais buscando um porto seguro em projetos que regeneram sistemas hídricos enquanto sequestram carbono em madeiras nobres.

Além do benefício ambiental, a operação na Bahia está forjando uma nova classe trabalhadora: os especialistas em restauração. São mateiros, coletores e técnicos que detêm um conhecimento ancestral, agora aperfeiçoado.

A lagoa azul é um singelo exemplo de que a degradação não é um destino irreversível, mas um estágio de má gestão que pode ser corrigido. E que, quando devolvemos à terra sua capacidade de filtragem, ela nos entrega abundância e água.

Laura Guimarães é supervisora de Melhoramento Genético e Pesquisa & Desenvolvimento da Symbiosis. A Symbiosis Investimentos é uma empresa que atua na restauração ecológica em larga escala, com forte presença no Sul da Bahia, especialmente na região da Mata Atlântica. Seu trabalho consiste na recuperação de áreas degradadas por meio do plantio de espécies nativas, regeneração natural assistida e desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas à restauração. A empresa também atua na geração de créditos de carbono, conectando conservação ambiental com soluções de mercado.