Mudança do Clima: Soluções baseadas na natureza ampliam infraestrutura para as periferias
Publicado em 06/02/2026 às 10:27 edição Lenilde Pacheco
Dayse Vital: adaptação urbana é urgente
Dayse Vital*
As periferias urbanas brasileiras estão entre os territórios mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas. A ocupação densa, o predomínio de solo impermeável e a ausência histórica de investimentos em drenagem e áreas verdes criam um cenário em que chuvas intensas rapidamente se transformam em enchentes e períodos de calor extremo se tornam insuportáveis. O Relatório de Avaliação 6 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), no grupo de trabalho sobre impactos e adaptação, aponta que áreas urbanas com baixa cobertura vegetal concentram riscos climáticos mais elevados e enfrentam maior dificuldade de resposta, o que aprofunda desigualdades sociais já existentes.
Nesse contexto, as Soluções Baseadas na Natureza deixam de ser iniciativas complementares para ocupar posição central no debate sobre a urgente adaptação urbana. Jardins de chuva, canteiros pluviais e biovaletas são amplamente reconhecidos como dispositivos capazes de reter, infiltrar e tratar a água da chuva no próprio território, reduzindo a pressão sobre sistemas convencionais de drenagem. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, referência internacional em políticas e padrões ambientais urbanos, estruturas de biorretenção podem reduzir entre 30% e mais de 90% do volume de escoamento superficial, a depender do projeto e das características do solo. Estudo de referência sobre drenagem urbana sustentável publicado na Water Science & Technology mostra que esses sistemas também reduzem picos de vazão em eventos extremos, situação recorrente nas periferias brasileiras.
Os ganhos, no entanto, vão além do controle de enchentes. A ampliação de áreas permeáveis e vegetadas tem impacto direto na redução do calor urbano, problema que se intensifica com o aumento da frequência das ondas de calor. Revisão internacional sobre o papel da infraestrutura verde no resfriamento das cidades, publicada no Landscape and Urban Planning, aponta reduções médias entre 2°C e 5°C na temperatura local, com efeitos mais relevantes em áreas densas e pouco arborizadas. O próprio IPCC destaca que a evapotranspiração e a substituição de superfícies impermeáveis estão entre as estratégias mais eficazes e de menor custo para mitigar ilhas de calor em cidades de países em desenvolvimento.
Ainda assim, persiste a percepção de que soluções baseadas na natureza seriam insuficientes diante da escala dos desafios urbanos, funcionando apenas como intervenções pontuais. Essa leitura ignora o consenso técnico de que essas soluções não substituem obras estruturais, mas ampliam sua eficiência quando integradas ao planejamento urbano. O relatório “Soluções Baseadas na Natureza para a Resiliência Climática nas Cidades”, do Banco Mundial, indica que a combinação entre infraestrutura tradicional e infraestrutura verde reduz custos operacionais, melhora o desempenho dos sistemas de drenagem e fortalece a resiliência urbana no médio e longo prazo.
A efetividade dessas intervenções, porém, depende de governança e desenho institucional adequados. Estudos produzidos por agências das Nações Unidas e centros internacionais de pesquisa em cidades sustentáveis indicam que projetos em áreas periféricas exigem adaptação técnica ao território, participação dos moradores e articulação com políticas públicas de saneamento, drenagem e clima. Experiências em escolas reforçam esse diagnóstico ao demonstrar que sistemas de captação e reúso de água da chuva reduzem o consumo de água potável e fortalecem a educação ambiental, conforme análise publicada no Journal of Cleaner Production, em sustentabilidade aplicada.
Tratar soluções baseadas na natureza como infraestrutura urbana legítima é um passo decisivo para enfrentar a crise climática de forma mais justa. Ao transformar a água da chuva, o solo e a vegetação em ativos urbanos, essas soluções contribuem para reduzir riscos, melhorar o conforto térmico e corrigir distorções históricas na distribuição de investimentos públicos. Em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes, ignorar esse potencial significa aceitar que as periferias continuem sendo as primeiras a sofrer e as últimas a receber resposta.
* Dayse Vital é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), mestre em Projeto, Arquitetura e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e especialização em Gerenciamento de Projetos. Atualmente Analista de Infraestrutra na Agência Recife para Inovação e Estratégia (Áries).