Setor têxtil agride o meio ambiente? Polo Salvador muda esse conceito
Publicado em 21/06/2023 às 11:34 edição Lenilde Pacheco
Linha de produção: Hartmann mantém 40 ações sustentáveis - Foto: Divulgação
A Global Fashion Agenda, organização sem fins lucrativos, mostra que mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram recentemente descartados e a projeção é de mais de 140 milhões de toneladas nos próximos oito anos. Este é um dos inúmeros levantamentos que colocam o setor têxtil entre os mais poluidores do planeta. Na capital baiana, essa lógica está sendo desconstruída para dar espaço à produção sustentável da indústria Polo Salvador, situada no bairro do Uruguai.
Inovação é uma das chaves do processo; tão importante que a empresa acaba de lançar uma camisa polo fabricada com 50% de poliéster PET, 50% de algodão certificado BCI e tecnologia BeSo Hygfeel, resultado de uma parceria com a multinacional alemã CHT, especialista em soluções químicas. A tecnologia empregada no processo de tinturação do tecido proporciona conforto e frescor que permitem usar a camisa até cinco vezes sem lavar.
A gerente de marketing da CHT, Mayra Montel, explica que uma das novidades para sustentabilidade da camisa é o uso do amaciante Tubingal Rise, produzido a partir de acessórios de silicone descartados pós-consumo, a exemplo de capas de celular e utensílios de cozinha feitos de silicone. O amaciante reciclado é aplicado no processo de acabamento, garantindo o toque macio e a hidrofilidade (capacidade da fibra de algodão reter água) do tecido.
A nova camisa passa a integrar a linha Ecoline, comercializada no atacado e varejo. “Foram 17 meses de testes para o desenvolvimento do novo produto”, afirma Hari Hartmann, diretor da fábrica. “O resultado é extraordinário porque a tecnologia empregada ampliou a vida útil da camisa, o que a mantém nova por muito mais tempo, com redução das lavagens”, enfatizou.
Não é primeira vez que Hari e a esposa Imelda Hartmann encaram o desafio de se antecipar em tendências e influenciar empresas na jornada ESG (ambiental, social e de governança, em inglês).
Em 2019, o casal fez parceria com a Rhodia e colocou no mercado uma camisa polo biodegradável que se desintegra em até 3 anos em aterros sanitários. A empresa do grupo belga Solvay havia desenvolvido o fio biodegradável de poliamida e os Hartmann apostaram num tecido que unisse o fio de algodão à poliamida biodegradável homologada pela Rhodia, com excelente resultado.
Hoje, a Polo Salvador possui um quadro de colaboradores com 50 pessoas, que produzem entre 1.200 e 1.500 camisas/dia destinadas a fardamentos corporativos e uso casual. No chão da fábrica, a rotina inclui mais de 40 ações sustentáveis: sistema para captação de água da chuva para os banheiros e plantas e as torneiras que fecham automaticamente.
Eficiência energética também faz parte do processo produtivo mantido com mais de 100 placas solares que ajudam a classificar a Polo Salvador como empresa verde, detentora da certificação por autossuficiência energética, a “GBC Zero Energy”, concedida pela Green Building Council Brasil (GBC). A Polo Salvador ainda promove a logística reversa e a destinação dos resíduos sólidos para cooperativas.
As camisas polo velhas valem desconto de 5% na compra de peças novas, desde que compradas na loja da fábrica. As camisas recolhidas são transformadas em retalhos e doadas para a creche escola Fonte de Luz, no bairro de São Cristóvão, onde são produzidos fuxicos, colchas e almofadas que são comercializados e garantem boa parte do sustento da instituição.
Com as práticas sustentáveis, a fábrica de camisa propõe o reconhecimento – de maneira calculada – do valor do meio-ambiente, das pessoas e das relações entre estes elementos, para maior equilíbrio do sistema produtivo, aquilo que estudiosos conceituam como economia regenerativa – hoje imprescindível.