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Royal Charlotte: cientistas descobrem novos recifes de coral no sul da Bahia

Publicado em 20/06/2022 às 21:40 edição Lenilde Pacheco


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Surpreendente a extensão dos corais - Foto: Reprodução de Vídeo/Ronaldo Francini Filho

São raras as oportunidades que pesquisadores têm de se aventurar por um ambiente verdadeiramente desconhecido da ciência. Pois um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo conseguiu fazer exatamente isso, sem precisar se afastar muito de um dos destinos turísticos mais conhecidos do litoral brasileiro. Numa expedição organizada pelo Projeto Coral Vivo, entre abril e maio deste ano, pesquisadores vislumbraram pela primeira vez o que se esconde no fundo do Banco Royal Charlotte, uma grande plataforma submarina no sul da Bahia, que ainda hoje é uma das regiões mais desconhecidas da costa brasileira — apesar de estar bem de frente a Porto Seguro e ser adjacente ao maior hotspot de biodiversidade marinha do Atlântico Sul, o Banco dos Abrolhos.

Os dados da expedição ainda estão sendo processados, mas já deixam claro que a região, a exemplo de Abrolhos, abriga grandes extensões de ecossistemas recifais, incluindo recifes de corais e bancos de rodolitos, além de outras estruturas geológicas interessantes. Em um dos pontos mais intrigantes, batizado de Laje 11, os pesquisadores encontraram um grande canal submerso — possivelmente um leito de rio pré-histórico —, com paredes revestidas de corais e habitado por uma enorme variedade de peixes, pequenos invertebrados e outras formas de vida marinha. Um ecossistema tão colorido e vibrante que parece ser um recife de águas rasas, mas que, na verdade, está a mais de 40 metros de profundidade, já na zona conhecida como “mesofótica” (com baixa incidência de luz solar).

“Acho que é um dos recifes mais saudáveis, profundos, que eu já vi no Brasil”, diz o pesquisador Ronaldo Francini Filho, do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP, em São Sebastião, que mergulhou no local. “Não esperava encontrar um recife tão complexo e tão saudável como esse, especialmente nessa profundidade.”

“Me surpreendi muito com os recifes mesofóticos e com a extensão da cobertura de corais. É uma coisa sem precedentes”, comemorou o professor Paulo Sumida, diretor do Instituto Oceanográfico (IO) da USP e coordenador de uma frente de pesquisa sobre o Royal Charlotte junto ao Projeto Coral Vivo, após ver as imagens da expedição. O coral mais abundante nos pontos visitados pelos cientistas era o Montastraea cavernosa, popularmente conhecido como coral-jaca (porque seus pólipos lhe dão uma textura semelhante à de uma casca de jaca), que pode ter diversas colorações. Tipicamente, as colônias dessa espécie formam estruturas mais arredondadas; mas na Laje 11 elas estão esparramadas sobre o recife, provavelmente como forma de aumentar sua superfície de contato com a pouca radiação luminosa que chega a essa profundidade — “como se fossem painéis solares”, compara Sumida.

E esse foi apenas um dos pontos identificados como de interesse pelos cientistas ao longo do banco, que tem cerca de 6 mil quilômetros quadrados (do tamanho do Distrito Federal). O que se chama de “banco”, neste caso, é uma plataforma submersa que se projeta mar adentro desde a borda do continente — em outras palavras, uma extensão da plataforma continental, que marca a fronteira entre as águas costeiras do continente e o mar profundo. Sua borda mais distante fica a cerca de 100 quilômetros da costa, entre os municípios baianos de Belmonte, Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro.

A expedição percorreu cerca de mil quilômetros ao longo de 16 dias navegando sobre as águas do Royal Charlotte, entre o fim de abril e o início de maio. Participaram ao todo 12 pesquisadores, de seis instituições de pesquisa, sendo cinco deles da USP. Foi a segunda expedição científica ao Royal Charlotte organizada pelo Projeto Coral Vivo, após um cruzeiro preliminar realizado em julho de 2020, no início da pandemia de covid-19.

O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras. Também participaram da expedição pesquisadores das universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio Grande do Norte (UFRN), Rio Grande (FURG) e Sul da Bahia (UFSB), além do próprio Coral Vivo.

A primeira semana de trabalho foi dedicada exclusivamente à realização de uma mapeamento geofísico do banco, que utilizou equipamentos de sonar para “escanear” a superfície da plataforma. Com base nessas imagens, foram identificados 42 pontos de interesse, contendo formações de origem biológica ou geológica, dos quais a metade (21) foi investigada posteriormente por mergulhadores ou com a utilização de um robô submersível do tipo R.O.V. (sigla em inglês para “veículo de operação remota”).

Reportagem: Herton Escobar/Jornal da USP