Dia da Amazônia: entidades alertam sobre urgência na conservação do bioma
Publicado em 05/09/2023 às 10:14 edição Lenilde Pacheco
Floresta Amazônica contribui para o equilíbrio climático - Foto: Ana Claudia Jatahy/MTur
A maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, sofre com diversas atividades humanas, como desmatamento, garimpo ilegal e usurpação de terras. Nesta terça-feira (5), Dia da Amazônia, as organizações lembram da necessidade urgente de preservar esse bioma.
Com área aproximada de 421 milhões de hectares, a Amazônia representa um terço das florestas tropicais do planeta. É responsável por diversos processos climáticos, como a evaporação e a transpiração da floresta, que contribuem para a manutenção do equilíbrio climático e das reservas de água doce. É também o lar de mais da metade da biodiversidade mundial.
Dados do Sistema de Avaliação de Riscos de Extinção da Biodiversidade (Salve), administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mostram que 224 espécies da fauna amazônica estão sob algum tipo de ameaça e pelo menos uma já foi considerada extinta. São 139 espécies classificadas como “vulneráveis”, 48 “em perigo” e 38 “criticamente em perigo”.
Entre os animais em perigo estão o peixe-boi amazônico, o tamanduá-bandeira, a onça-pintada, a arara e a anta, classificados como “vulneráveis”. Espécies de peixes, como o Acari, estão “criticamente ameaçadas”.
Para Toya Manchineri, coordenadora geral das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab), o Dia da Amazônia é um dia de luta e reflexão. Líder de mais de 70 organizações indígenas, Toya disse que este ano ainda não há muito o que comemorar devido ao avanço do desmatamento, do garimpo ilegal e das ameaças aos povos indígenas e tradicionais que ocorreram no governo de Jair Bolsonaro.
Selva Amazônica
“É um dia especial de luta e não há o que comemorar, principalmente se pegarmos os dados produzidos pelo órgão investigativo, que é do último governo. Há uma destruição massiva da selva, do bioma e uma onda crescente de assassinatos e perseguições a indígenas, quilombolas e extrativistas”, afirmou a liderança indígena. “O dia 5 é para refletirmos sobre como podemos acabar com esses assassinatos e com a perseguição aos povos que vivem na selva. Então é um momento de reflexão e não de celebração”, enfatizou.
Adriana Ramos, assessora de direito e política socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA), tem opinião semelhante. Ela ressalta que, apesar dos dados recentes mostrarem uma redução significativa do desmatamento nos primeiros sete meses do ano, ainda há muito a ser feito. Números do governo federal mostram redução de 42% no desmatamento no bioma Amazônia nesse período. Em julho, a queda foi de 66%, e para agosto a expectativa é que permaneça em patamar semelhante.
“Digamos que não temos tanto o que comemorar porque há uma série de desafios que temos que enfrentar e que ainda estão muito distantes. A Amazônia é uma grande parte do Brasil e o país precisa dar a ela o importância que merece”, declarou.
Crime organizado
Adriana também mencionou o aumento do crime organizado na região e a necessidade de políticas voltadas às populações locais.
“Temos que reconhecer que a violência e o crime organizado cresceram muito na região. Ainda há pessoas vivendo nas cidades da Amazônia que precisam de atenção e oportunidades de desenvolvimento. as terras indígenas e as unidades de conservação que devem ser enfrentadas para que essas áreas, que simbolizam a parte mais rica da Amazônia em termos de biodiversidade e de enfrentamento à crise climática, sejam mais valorizadas”, afirmou.
Outro alerta é sobre o andamento de grandes obras de infraestrutura na região, como a pavimentação da rodovia BR-319, construída pelos governos militares na década de 1970, e da Rodovia do Pacífico. Para Adriana, esses projetos têm enorme impacto no processo de desmatamento da região, pois poderiam aumentar a circulação de usurpadores e madeireiros ilegais, além de não trazer benefícios concretos aos moradores.
Uma das principais preocupações é que se projetos como estes continuarem, combinados com o desmatamento, a mineração ilegal e a usurpação de terras para pastagens, a Amazônia poderá chegar a um ponto sem retorno. Este termo é utilizado pelos especialistas para se referir ao momento em que a floresta perde a sua capacidade de auto-regeneração em consequência da desflorestação, da degradação e do aquecimento global, tendendo assim para o processo de desertificação.
“São projetos que terão um impacto enorme e que não fazem parte de uma estratégia de desenvolvimento para a região. Precisamos pensar em projetos econômicos que valorizem a área, os serviços ambientais gerados a partir do uso sustentável da floresta e que fortaleçam a de melhor que a Amazônia tem a oferecer neste momento, que são as condições para enfrentar a emergência climática. Só conseguiremos manter isso se evitarmos o chamado ponto sem volta, ou seja, se pararmos o desmatamento e a perda de biodiversidade.
Toya Manchineri ressalta que esses projetos não estão sendo desenhados com a participação de quem mora na região.
“Os projetos econômicos trazem muitas complicações para os povos indígenas. Em primeiro lugar, não são desenhados em conjunto com os povos que vivem na Amazônia. Eles vêm com uma visão muito externa de desenvolvimento, que muitas vezes não reflete a realidade local. A questão da mineração, que é muito ruim, destrói a floresta, destrói a organização social e leva doenças aos territórios indígenas. Então há projetos de mineração e monoculturas que estão destruindo a floresta”, disse Toya Manchineri.
Repórter: Luciano Nascimento, da Agência Brasil