Embrapa entrega contribuições científicas do agro para a COP30
Publicado em 01/11/2025 às 07:29 edição Lenilde Pacheco
Com as mudanças do clima, Embrapa aponta os caminhos da ciência para soluções integradas - Foto: Embrapa/Divulgação
O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, recebeu nesta sexta-feira (31) da presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, um documento com subsídios que poderão contribuir para as negociações brasileiras na COP30, colhidos a partir de uma série de encontros promovidos pela Embrapa durante o ano com mais de 1.300 participantes, entre eles 100 especialistas, produtores rurais, agricultores familiares, representantes de comunidades tradicionais, setor privado e gestores públicos. Os encontros, intitulados Diálogos pelo Clima, foram realizados ao longo dos últimos meses em seis cidades, cada uma delas em um bioma brasileiro.
O documento “Contribuições Embrapa para o Mutirão Global contra a Mudança do Clima” contém desafios e propostas para produção de baixo carbono e adaptação da agropecuária às mudanças do clima que impactam a produção de alimentos e a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares.
Corrêa do Lago enfatizou a estratégia de construção coletiva das posições brasileiras. Segundo ele, ouvir diferentes setores é fundamental para fortalecer a legitimidade da diplomacia climática nacional. “Nós precisamos ouvir o Brasil”, afirmou ao explicar que as contribuições como da Embrapa ajudam a definir quais são as linhas que temos de avançar e as linhas que é preciso ter muito cuidado. O embaixador destacou que os insumos recebidos serão fundamentais para a posição brasileira na conferência. “Graças a todas as contribuições, eu estou me formando para poder ser o presidente de COP da melhor forma possível”, declarou.
Produção do documento
Para construir a carta, a Embrapa percorreu os seis biomas brasileiros com uma escuta ativa para ampliar o conhecimento, promover a agricultura sustentável e se preparar para contribuir com a COP30. Massruhá enfatizou o caráter colaborativo da iniciativa: “É um simbolismo: a Embrapa trabalhou com os 43 centros de pesquisa junto aos seis biomas brasileiros”, afirmou.
Ao longo de cinco décadas, a Embrapa consolidou uma trajetória que combina ciência, inovação e compromisso socioambiental — um percurso reiterado nas falas da presidente e dos presentes. A instituição nasceu diante do desafio de desenvolver uma agricultura tropical baseada em pesquisa e, desde então, contribuiu para transformar o Brasil em referência mundial em produção de alimentos com base científica.
Hoje, essa história se projeta para o futuro em novas frentes, conforme explica Silvia Massruhá: recuperação de áreas degradadas, monitoramento ambiental avançado, tecnologias e sistemas produtivos de baixo carbono. “Essa evolução só é possível porque a Embrapa trabalha com os diferentes atores, integra políticas públicas, capacitação e empreendedorismo rural, e se ancora na ciência para promover uma agricultura mais resiliente, inclusiva e alinhada às exigências climáticas contemporâneas”, ressaltou.
Papel estratégico da ciência
O chefe da Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa, Marcelo Morandi, reforçou o caráter histórico da Jornada pelo Clima. “Estamos refletindo aqui cinco décadas de compromisso da Embrapa, unindo ciência, tecnologia e responsabilidade socioambiental”. Ele destacou que o documento entregue sistematiza evidências, experiências e contribuições rumo a uma transição justa e inclusiva. “Qual é o papel que a ciência pode ter para alavancar cooperação e construção de uma agricultura e de um sistema alimentar mais resiliente e mais sustentável?”, ressaltou. Segundo ele, o trabalho reafirma “o papel central da ciência como mecanismo para prover soluções”.
Em sua participação, o ex-ministro e enviado especial da agricultura à COP30, Roberto Rodrigues, retomou a ideia que tem defendido em diferentes fóruns: o vínculo profundo entre agricultura e paz. Segundo ele, a produção de alimentos em bases sustentáveis não é apenas um motor econômico, mas um fundamento civilizatório. “Sem segurança alimentar, não há estabilidade social nem desenvolvimento duradouro — e, portanto, sem alimento não há paz”. Ao reforçar o papel do Brasil como potência agroambiental, Rodrigues associou diplomacia, ciência e inclusão produtiva como pilares para que o país contribua com um mundo mais seguro, solidário e sustentável.
Diplomacia climática
O embaixador André Corrêa do Lago (foto à direita), negociador climático de referência no país, celebrou as iniciativas da Embrapa e projetou expectativas positivas. “Uma das coisas que eu mais quero fazer em Belém é percorrer a Agrizone”, disse, afirmando o interesse de visitar o espaço ao lado de Roberto Rodrigues. Para o diplomata, iniciativas como a da Embrapa reforçam o papel do Brasil na governança climática global e ajudam a consolidar “a democracia internacional”.
Durante a coletiva de imprensa realizada logo após a entrega do documento, Corrêa do Lago afirmou que o Brasil espera ampla presença de delegações. “Acredito que devem vir praticamente todos os países”, disse, citando a infraestrutura de hospedagem e o interesse global no debate climático.
Sobre o documento
O documento, “Carta ao Presidente da COP30: Contribuições Embrapa para o mutirão global contra a mudança do clima”, traz uma visão consolidada dos desafios que impactam a produção de alimentos e a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares face às mudanças do clima e aponta os caminhos da ciência para a implementação de soluções integradas.
Entre os desafios e oportunidades captados nos Diálogos estão gerar métricas e dados científicos consistentes e integrados, fortalecer ferramentas de gestão de riscos climáticos em nível regional e municipal, criar uma estrutura responsável pela governança das medidas das emissões e do sequestro de carbono para a regulação dos mercados de carbono, estabelecer governança integrada para resposta coordenada a eventos extremos, priorizar políticas públicas de apoio a agricultores familiares, fortalecer a prevenção e o combate aos incêndios florestais, restaurar paisagens e conectar a agricultura aos ecossistemas, entre outros.
A partir desta escuta ativa dos Diálogos, fica claro o papel central da ciência para antecipar cenários de impacto e ser provedora de soluções para a transformação dos sistemas alimentares e de baixas emissões, tornando-os mais resilientes ao clima. Os desafios globais das mudanças climáticas não reconhecem fronteiras, e exigem uma cooperação internacional ativa em ciência, tecnologia, inovação, formação e capacitação, bem como ambientes de investimento e políticas públicas e a partilha de práticas sustentáveis. A promoção de respostas às emergências climáticas deve ser um esforço global imediato em direção a ações integradas e urgentes.
De acordo com o documento, as propostas se concentram na Resiliência e no Manejo de Recursos Naturais, atendendo à conservação e ao uso sustentável, com destaque para a gestão da água e da saúde do solo e da redução da pressão sobre florestas e outras áreas sensíveis; na Bioeconomia em todas as suas dimensões — biomassa, bioindústria, bioinsumos e sociobioeconomia, transformando o capital natural (biodiversidade) em capital produtivo por meio da ciência; na Produção Sustentável e Competitividade, levando-se em conta a diversidade de modelos de agricultura e de sistemas alimentares terrestres e aquáticos, as tendências de consumo e agregação de valor, a economia circular e estratégias dedicadas à redução de perdas e desperdícios e significativa contribuição para a transição energética.
E incluem ainda o investimento em tecnologias emergentes e disruptivas, para o desenvolvimento de soluções tecnológicas em automação, agricultura de precisão, digital e espacial, ômicas e inteligência artificial, para aumentar a eficiência produtiva e ambiental. Por fim, a Inclusão Socioprodutiva e Digital, com ênfase na garantia da segurança alimentar e da integração entre a produção, a alimentação e nutrição, a conservação e a restauração da natureza, no conceito da Saúde Única.
Os Diálogos pelo Clima também destacaram a importância do olhar para o contexto local, da essencialidade da educação e capacitação de jovens e mulheres rurais, da inclusão digital e do fortalecimento das redes de assistência técnica e extensão rural como pilares da transição para sistemas produtivos sustentáveis e de baixo carbono.
A íntegra do documento está disponível aqui.