El Niño reforça urgência de adaptação do agro aos riscos da crise climática
Publicado em 15/10/2026 às 10:34 edição Lenilde Pacheco
Rodrigo Castro: agro regenerativo é um caminho sem volta - Foto: Embrapa
Com participação próxima de 23% no PIB brasileiro, considerando toda a cadeia do agronegócio — dos insumos à produção, ao processamento e à distribuição —, o setor está exposto a riscos climáticos que ultrapassam as perdas nas lavouras. Chuvas intensas e concentradas em determinados períodos e episódios de escassez hídrica podem comprometer safras, reduzir a renda dos produtores e afetar emprego, crédito rural, seguros, logística e preços dos alimentos.
O desafio não se limita a responder aos prejuízos provocados por fenômenos como o El Niño. Em um cenário de aquecimento global, a agropecuária precisa ampliar sua capacidade de adaptação a condições climáticas adversas, com planejamento de longo prazo, gestão de riscos e práticas produtivas mais resilientes.
Essa é a avaliação de Rodrigo Castro, membro do Conselho Estratégico da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e diretor de País da Fundação Solidaridad. Para ele, governos e empresas ainda concentram esforços na resposta aos danos, enquanto a prioridade deveria ser antecipar medidas que permitam manter a produtividade e a renda diante de eventos extremos.
“Nenhum segmento da sociedade encarou o problema com a gravidade que ele pede. Precisamos de soluções de médio e longo prazos, porque a temperatura vai continuar subindo e os eventos extremos tendem a se intensificar”, afirma.
O alerta também é reforçado por uma projeção de especialistas das Nações Unidas, segundo a qual a produção global de alimentos poderá sofrer uma redução de até 14% até 2050 em decorrência dos impactos climáticos. O cenário evidencia a importância de preparar os sistemas agrícolas para os efeitos do aquecimento global sobre a produtividade e a segurança alimentar.
Riscos climáticos se estendem por toda a cadeia
Uma quebra de safra pode repercutir sobre os custos da pecuária, o transporte, o crédito rural e a sustentabilidade dos seguros agrícolas. A redução da oferta também pode pressionar os preços dos alimentos, com consequências para consumidores e para a economia.
Por isso, a adaptação exige articulação entre informações climáticas confiáveis, planejamento produtivo, assistência técnica, crédito e instrumentos de proteção financeira. Embora grandes empresas já incorporem previsões climáticas à gestão de riscos, ampliar o acesso a essas ferramentas, especialmente entre pequenos e médios produtores, continua sendo um desafio.
“Mais de um terço da riqueza gerada no nosso país vem do campo, envolvendo emprego, valor agregado e toda a cadeia do agro, do produtor ao processamento e ao varejo”, lembra Castro. Segundo ele, eventos climáticos extremos podem elevar custos, pressionar preços e comprometer a geração e a manutenção de empregos.
Nesse contexto, o desenho e a execução das políticas de crédito, seguro agrícola e assistência técnica são fundamentais. “Seguro safra e crédito agrícola, diante de cenários climáticos como esse, se tornam insuficientes”, alerta.
O especialista também aponta limitações na assistência técnica oferecida aos pequenos produtores. “Sem orientação contínua no campo, torna-se desafiador para a agricultura familiar converter o crédito contratado em sistemas estruturalmente resilientes a longo prazo”, afirma.
Práticas resilientes ganham importância
A adaptação da agropecuária envolve o manejo do solo, a diversificação produtiva e a adoção de sistemas capazes de reduzir a vulnerabilidade às oscilações climáticas. Entre as alternativas estão os sistemas agroflorestais (SAFs), a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e práticas de manejo que favoreçam a conservação do solo e da água.
Os resultados dependem das condições locais, do planejamento e da assistência técnica. A ampliação dessas práticas requer investimentos em pesquisa, capacitação e mecanismos de financiamento compatíveis com a transição dos sistemas produtivos.
“A agricultura regenerativa é um caminho sem volta e tende a ganhar escala à medida em que se intensifica a crise climática. O futuro da produção de alimentos passa por sistemas que conciliam resiliência e adaptação climática com a redução de emissões; por isso, precisamos direcionar pesquisa, investimento e crédito para essas práticas”, afirma Castro.
A adaptação da agropecuária não é apenas uma medida para reduzir perdas futuras. É parte da estratégia para preservar a capacidade produtiva do setor, sustentar a renda no campo e fortalecer a segurança alimentar em um cenário de mudanças climáticas.
Sobre a Coalizão Brasil
A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura reúne mais de 400 organizações dos setores do agronegócio, empresarial, financeiro, acadêmico e da sociedade civil. O movimento promove debates, análises de políticas públicas e articulação entre diferentes setores para contribuir com a conservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico do país.