Projeto Mares avança na proteção da biodiversidade na Baía de Todos-os-Santos
Publicado em 07/09/2026 às 07:34 edição Lenilde Pacheco
Ilha de Itaparica: Projeto Mares fortalece a proteção das colonias de corais - Foto: Projeto Mares/Divulgação
O Projeto Mares deu início ao transplante de colônias de corais na Área de Proteção Ambiental Recife das Pinaúnas, na região da Praia do Duro, em Mar Grande, na Ilha de Itaparica. A implantação das primeiras 30 colônias de Millepora alcicornis, realizada no final de agosto, marca o começo de uma nova etapa da iniciativa e representa um avanço concreto na restauração dos ecossistemas recifais e na proteção da biodiversidade oceânica na Baía de Todos-os-Santos.
A atividade encerrou o Curso Técnico de Restauração de Corais, iniciado em maio, e levou os próprios alunos a participar do plantio das primeiras colônias. Até fevereiro de 2030, o Projeto Mares pretende implantar 5 mil novas colônias da espécie em oito pontos distribuídos por uma área de 1,5 km². Serão quatro áreas destinadas ao plantio e outras quatro utilizadas como pontos de controle e monitoramento.
A iniciativa aposta na restauração ativa dos recifes como estratégia para recuperar habitats fundamentais para a vida marinha. À medida que crescem e desenvolvem novas ramificações, os corais ampliam a complexidade estrutural do ambiente e criam espaços de abrigo, alimentação e reprodução para diferentes espécies, incluindo peixes e pequenos invertebrados. O processo contribui para fortalecer a biodiversidade, a saúde dos ecossistemas recifais e atividades econômicas que dependem diretamente da conservação do ambiente marinho, como a pesca e o turismo sustentável.
“A atividade marcou a fase final do curso, a última aula prática, quando os próprios alunos fizeram o plantio. Depois de aprenderem a teoria e passarem pela prática de confecção das sementeiras e dos berçários, eles fecharam a formação com a manutenção, a limpeza e a fixação das colônias no recife”, afirma o biólogo Ricardo Miranda, coordenador científico do Projeto Mares.
A partir de agora, os participantes da formação poderão atuar como monitores nas ações de restauração, ampliando a capacidade local de acompanhamento e conservação dos recifes. As colônias implantadas serão monitoradas pela equipe científica, que acompanhará indicadores como sobrevivência, fixação, crescimento e vitalidade, além de possíveis episódios de branqueamento, doenças e mortalidade.
O acompanhamento também permitirá avaliar os impactos da restauração sobre a biodiversidade associada aos corais. Por meio de registros em vídeo e fotografia e de análises de fotogrametria, os pesquisadores vão medir a evolução da complexidade estrutural das colônias e observar a presença de organismos que passam a ocupar esses ambientes.
“À medida que os corais crescem e formam novos ramos, aumentam também os espaços disponíveis para abrigo e habitat de outros organismos. Por meio de registros em vídeo, fotografia e análises de fotogrametria, conseguimos transformar essa complexidade estrutural em dados e acompanhar as mudanças ao longo do tempo”, explica Miranda.
Segundo o coordenador científico, a expectativa é que as colônias sobrevivam, se fixem e cresçam de forma saudável, favorecendo a presença de espécies importantes para o equilíbrio dos recifes. “Esse processo também pode contribuir para atividades como a pesca, que dependem da manutenção de ecossistemas marinhos saudáveis”, afirma.
Formação alia capacitação e conservação
Com 112 horas de atividades teóricas e práticas, o Curso Técnico de Restauração de Corais abordou temas como ecologia e conservação dos recifes, mudanças climáticas, restauração ativa, monitoramento ambiental, mergulho, educação ambiental, áreas marinhas protegidas e turismo sustentável. A formação combinou conteúdo técnico com experiências de campo em diferentes etapas do processo de restauração.
Na avaliação realizada ao final do curso, os participantes afirmaram ter ampliado a compreensão sobre a importância dos recifes de corais e demonstraram interesse em aplicar os conhecimentos adquiridos. Todos os alunos também atribuíram nota máxima à formação quando perguntados se recomendariam a experiência a outras pessoas.
As atividades de restauração, a montagem e a manutenção dos berçários estiveram entre as experiências mais marcantes para os participantes. Para a engenheira de produção Ainoã Souza, moradora de Vera Cruz, a capacitação ampliou tanto suas perspectivas profissionais quanto sua relação com o ambiente marinho.
“Todas as minhas expectativas foram superadas. Pensei que seria apenas um curso, mas ele me trouxe uma nova visão de mundo, não só sobre os ecossistemas marinhos, mas também sobre conexão com as pessoas e troca de vivências”, afirma.
A ecóloga Evelyn Palhano, também moradora de Vera Cruz, destaca a importância da experiência prática e do contato direto com o ambiente marinho. “O curso superou minhas expectativas e me proporcionou novos conhecimentos sobre os recifes e sobre a Ilha de Itaparica, além de me aproximar mais da comunidade por meio da troca de experiências com os outros participantes”, relata.
A formação foi conduzida por uma equipe multidisciplinar da PRÓ-MAR, com participação de profissionais convidados de outras instituições de pesquisa. A coordenação científica é do biólogo Ricardo Miranda, com supervisão de mergulho e instrução de Rodrigo Maia Nogueira.
Ao combinar capacitação de moradores, pesquisa científica e restauração ativa, o Projeto Mares consolida uma frente de atuação voltada à recuperação dos ambientes recifais da Baía de Todos-os-Santos. A iniciativa busca não apenas ampliar a cobertura de corais, mas também fortalecer a biodiversidade, gerar conhecimento sobre a resposta dos recifes às mudanças ambientais e formar uma rede local capacitada para participar da conservação do patrimônio marinho da região.
O Projeto Mares é uma iniciativa da ONG Socioambientalista PRÓ-MAR, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.