El Niño: eventos extremos exigem planejamento do setor elétrico
Publicado em 23/07/2026 às 07:34 edição Lenilde Pacheco
El Niño pode contribuir para condições mais secas, calor extremo e aumento de queimadas - Foto: Divulgação
A configuração de um fenômeno El Niño de intensidade forte, com persistência já a partir da primavera e impactos se estendendo até o fim do verão de 2027, impõe novos desafios operacionais e de planejamento para o setor elétrico brasileiro, na avaliação da Climatempo, a maior empresa de consultoria meteorológica e de previsão do tempo do Brasil e da América Latina.
Dados recentes apontam 97% de probabilidade de continuação do fenômeno, com 81% de chance de atingir seu ápice entre outubro e dezembro deste ano. Esse cenário exigirá das empresas de geração, transmissão e distribuição estratégias preventivas robustas para lidar com a redistribuição dos extremos climáticos em todo o território nacional.
Apesar da força do fenômeno atual, a meteorologista Lara Marques, da Climatempo, destaca um ponto crucial para a compreensão do cenário: o El Niño, isoladamente, não pode ser responsabilizado por todos os eventos climáticos extremos.
“O El Niño é um agente climático importante, mas precisamos de uma série de outros fatores e sistemas atmosféricos associados para termos impactos tão significativos”, explica Lara. “Um exemplo claro foi a tragédia no Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024, que resultou de uma combinação de diversos eventos meteorológicos severos, e não apenas da atuação do El Niño”.
Outro fator de alerta para o setor de energia é a mudança na ciclicidade global. Historicamente, os fenômenos El Niño e La Niña eram intercalados por janelas mais longas de neutralidade climática. Lara afirma que, agora, esses períodos neutros estão cada vez menos frequentes e com durações mais curtas.
Para o setor elétrico, essa transição rápida e a ausência de longos períodos de normalidade dificultam significativamente a recuperação dos mananciais e reservatórios durante a chamada estação úmida.
“Além da necessidade de que as chuvas ocorram onde os mananciais estão localizados, o tempo hábil para que as bacias hidrográficas retomem seus níveis operacionais ideais está menor, exigindo uma gestão hídrica muito mais dinâmica e cautelosa por parte do Operador Nacional do Sistema (ONS) e das geradoras”, avalia a meteorologista.
Para os próximos meses, as análises da Climatempo indicam uma clara redistribuição dos extremos climáticos, pressionando a infraestrutura de forma desigual:
- Região Sul: Há maior probabilidade de ocorrência de chuvas volumosas, acompanhadas de rajadas de vento e descargas elétricas. Essas condições podem elevar o risco de impactos localizados na infraestrutura de transmissão e distribuição, reforçando a importância do monitoramento contínuo e de ações preventivas.
- Norte, Nordeste e Amazônia: Pode contribuir para condições mais secas, calor extremo e aumento expressivo de queimadas. As chuvas ficarão abaixo da média – embora pancadas intensas e isoladas possam ocorrer. Esse cenário pressiona a geração hidrelétrica local devido ao menor afluxo (inflow) nos reservatórios.
- Sudeste e Centro-Oeste: O impacto nos níveis dos reservatórios será heterogêneo. Embora algumas bacias possam ser privilegiadas com chuvas, a análise hídrica exige um olhar amplo e nacionalizado, evitando projeções de quedas homogêneas, dada a irregularidade das precipitações.
Temperaturas em alta e sobrecarga no sistema
Além das mudanças no regime de chuvas, o setor elétrico deve se preparar para um aumento no consumo de energia. A meteorologista da Climatempo ressalta que a tendência é de temperaturas acima da média histórica, impulsionadas pelo El Niño forte somado a um contexto de aquecimento contínuo no Brasil — que já registra uma anomalia térmica superior a 1°C nas últimas seis décadas. Esse calor excessivo sobrecarrega o sistema elétrico, especialmente nos horários de pico, e aumenta o risco de falhas na rede de distribuição.
“Não podemos mais tratar essas previsões climáticas apenas como eventos pontuais. É fundamental que as empresas do setor elétrico não atuem apenas na contingência imediata, mas incorporem a adaptação e a resiliência em seus planejamentos de um, cinco e dez anos”, alerta Lara Marques, destacando que o monitoramento contínuo e regionalizado será a principal ferramenta para antecipar manutenções, mitigar riscos e proteger a infraestrutura crítica do País.
Sobre a Climatempo
A Climatempo é a maior e mais reconhecida empresa de consultoria meteorológica e previsão do tempo do Brasil e da América Latina, oferecendo soluções personalizadas para diversos setores da economia. Com tecnologia avançada e uma equipe de especialistas altamente qualificada, a empresa fornece previsões precisas e análises climáticas estratégicas para auxiliar na tomada de decisão em segmentos como energia, infraestrutura, agronegócio, setores públicos, entre outros. Para o público em geral, fornece informações sobre o clima por meio do seu website e aplicativos. Juntos, esses canais alcançam, em média, 20 milhões de usuários mensalmente. Foi a primeira empresa privada a oferecer análises climáticas customizadas no mercado brasileiro e, em 2015, instalou o LABS Climatempo no Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (SP), para atuar na pesquisa e no desenvolvimento de soluções para tempo severo, energias renováveis (eólica e solar), hidrologia, comercialização e geração de energia, navegação interior, oceanografia e cidades inteligentes.
Fundada em 1988, a Climatempo foi adquirida, em 2019, pela StormGeo, empresa líder global em serviços de inteligência meteorológica e suporte à decisão, sediada na Noruega, com presença em 26 países e 550 funcionários, e que, desde 2021, integra o grupo Alfa Laval, líder global no fornecimento de produtos nas áreas de transferência de calor, separação e manuseio de fluidos.