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Preservar ou conservar? Maior desafio ambiental brasileiro é cuidar dos territórios

Publicado em 15/06/2026 às 09:03 edição Lenilde Pacheco


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Batista Pereira: natureza viva gera pertencimento, conhecimento, renda e qualidade de vida

Por Ademar Batista Pereira*

O Brasil abriga algumas das maiores riquezas ambientais do planeta. Da Mata Atlântica ao Pantanal, da Amazônia ao Rio São Francisco, temos um patrimônio natural que não pertence apenas à nossa geração. Pertence também às próximas.

Por isso mesmo, proteger a natureza é uma obrigação. A pergunta é: estamos protegendo da forma correta?

Ao longo dos últimos anos, o debate ambiental brasileiro parece ter criado uma falsa escolha entre preservar e desenvolver. Como se fosse necessário optar entre a natureza e as pessoas. Entre a floresta e a comunidade. Entre o rio e a economia local.

Talvez o problema comece justamente aí. Preservar e conservar não são a mesma coisa. Preservar é manter intocado. É afastar a presença humana. Em determinadas situações, isso é necessário e indispensável.

Conservar é diferente. Conservar significa permitir o uso responsável, garantindo que o patrimônio ambiental continue existindo para as próximas gerações. Conservar exige gestão, monitoramento, limites claros e participação das comunidades locais.

Talvez a maior confusão do debate ambiental brasileiro seja acreditar que proteger significa proibir. Em muitas partes do mundo, reservas e parques convivem com hotéis, pousadas, manejo florestal sustentável, turismo de natureza, pesquisa científica e atividades tradicionais. O que se protege não é a ausência do ser humano, mas a capacidade do território de continuar existindo e gerando valor ambiental, social e econômico ao longo do tempo.

Escrevo estas linhas da Costa do São Francisco, em Piaçabuçu, Alagoas. Aqui o Velho Chico encontra o mar em uma das paisagens mais bonitas do país. Dunas douradas, praias extensas e uma riqueza natural extraordinária. Mas basta olhar um pouco para trás para encontrar outra realidade: lixo, esgoto, assoreamento e degradação ambiental ao longo do rio.

Ao mesmo tempo, vemos estruturas públicas concentrando esforços para controlar atividades turísticas, restringir acessos e limitar a presença de moradores e empreendedores locais.

Não se trata de defender ocupação desordenada. Muito pelo contrário. A pergunta é outra: é mais simples baixar uma lei para proibir e tão pouco eficientes para conservar?

A mesma reflexão vale para a Mata Atlântica paranaense. Em Morretes, Antonina, Guaraqueçaba e nas ilhas da baía, encontramos comunidades tradicionais, pescadores, pequenos empreendedores e famílias que convivem há gerações com o território. Muitas vezes, essas pessoas são tratadas como ameaça quando poderiam ser as maiores aliadas da conservação.

Uma comunidade que gera renda com turismo responsável tende a proteger o patrimônio natural. Uma comunidade que participa da gestão do território tende a denunciar abusos e combater degradações. Uma comunidade que se sente pertencente tende a cuidar.

Já uma comunidade afastada das decisões passa a enxergar a proteção ambiental como um obstáculo e não como uma oportunidade.

O maior desafio ambiental brasileiro não é criar proibições. É cuidar dos territórios. Proibir uma atividade é relativamente simples. Basta uma regra. O difícil é monitorar rios, florestas, dunas, manguezais e áreas protegidas ao longo de milhares de quilômetros. O difícil é impedir a caça ilegal, o despejo de lixo, a retirada clandestina de madeira, a ocupação irregular e a degradação ambiental. E isso exige presença permanente, recursos, conhecimento local e governança.

Por isso, o desafio verdadeiro não é conservar. É transformar comunidades, empreendedores, pesquisadores, guias, pescadores e moradores em aliados da proteção ambiental. Porque uma área protegida apenas por proibições depende exclusivamente da fiscalização. Uma área conservada por quem vive nela ganha milhares de olhos atentos todos os dias.

Isso exige ciência, fiscalização, planejamento, especialmente governança e descentralização.

Nenhum escritório distante conhece melhor uma baía, um rio, uma trilha ou uma comunidade do que aqueles que vivem diariamente naquele território. As diretrizes podem ser nacionais. Os objetivos ambientais devem ser claros. Mas a gestão precisa aproximar quem decide de quem convive com a realidade.

O futuro da conservação ambiental brasileira passa menos por gabinetes e mais por territórios. Passa menos por proibições genéricas e mais por responsabilidade compartilhada. Porque a melhor forma de proteger um território é fazer com que as pessoas tenham interesse em mantê-lo vivo.

E uma natureza viva não é aquela que existe apenas nos mapas. É aquela que consegue gerar pertencimento, conhecimento, renda, qualidade de vida e orgulho para quem vive ao seu redor.

Talvez o Brasil precise preservar quando necessário. Mas, acima de tudo, precisa aprender a conservar.

Ademar Batista Pereira é presidente do Instituto Destino Brasil.