Opinião: Crise do plástico exige discussão mais ampla no cenário internacional
Publicado em 04/03/2026 às 14:17 edição Lenilde Pacheco
Irineu Bueno Barbosa Jr.: cooperação internacional pode acelerar o desenvolvimento da economia circular
Irineu Bueno Barbosa Júnior*
Apesar de especialistas reconhecerem os avanços que a COP 30 trouxe, como o lançamento Fundo Florestas Tropicais Para Sempre – modelo de financiamento que prevê que os recursos sejam repassados a países com florestas tropicais – e os debates sobre adaptação climática, houve ainda alguns temas persistentes sem avanços consideráveis. O principal gargalo foi a discussão sobre combustíveis fósseis, sem que os países entrassem em acordo quanto às estratégias para descontinuar o uso desse tipo de energia.
E embora seja um tema correlato, em razão do uso de petróleo como matéria-prima, a crise do plástico não foi amplamente discutida no evento. A poluição por plásticos foi citada como tema transversal de outras discussões, como a poluição dos oceanos, mas não recebeu o devido protagonismo para analisar, por exemplo, estratégias de cooperação internacional para promoção da economia circular, suporte para países em desenvolvimento estruturarem sistemas eficientes de coleta, as oportunidades de geração de renda e economia por meio da reutilização de embalagens pós-consumo, etc. A reciclagem foi discutida por apenas 5 dos 286 painéis programados para a COP 30, o que evidencia que o tema não ganhou a dimensão que merecia.
O Brasil pode ter avançado com o Decreto do Plástico (12.688/2025) em direção a uma gestão mais inteligente dos resíduos plásticos. O documento estabelece modelos de operação, institui estruturação e define obrigações que devem ser assumidas pelas empresas do setor, e tem como um dos pontos principais a determinação de que, até 2026, embalagens plásticas deverão contar com no mínimo 22% de matéria prima reciclada, com a meta de alcançar 40% até 2040. Porém, o mundo ainda não entrou num acordo quanto ao tema, como se viu pelo fato das reuniões da ONU sobre a crise do plástico não terem tido avanços significativos.
Nesse contexto, alguns tópicos seriam muito bem-vindos em eventos do porte da COP 30, para que possamos ter avanços mais sólidos no fomento da circularidade. Um dos principais seria a discussão sobre como estruturar a logística reversa, com o apoio da iniciativa privada e do Poder Público de cidades ao redor do mundo, para que a coleta de resíduos e a reutilização industrial dos materiais possa ser mantida a longo prazo. Isso é uma discussão urgente no Brasil e que pode vir a beneficiar muitos outros países que também estão em desenvolvimento.
Outro tema importante é a difusão de informações sobre as vantagens do plástico reciclado em comparação com outros materiais, em termos de sustentabilidade, viabilidade econômica e desempenho. Segundo análise do Ciclo de Vida da Embalagens PET para Alimentos Líquidos, conduzido pela Abipet, o PET tem um potencial de mudança climática 44% menor em comparação com embalagens de alumínio, e 93% menor em relação a embalagens de vidro. E o PET reciclado, graças ao processo de pós-condensação, tem suas propriedades mecânicas restauradas para níveis equivalentes aos da resina virgem. Isso torna a reciclagem de PET uma solução incontestavelmente sustentável para atender às variadas demandas das indústrias de alimentos, bebidas, higiene e cosméticos.
A comunidade internacional precisa também reconhecer que a cadeia de reciclagem tem enorme potencial para gerar empregos diretos e indiretos, além de trazer um impacto positivo para cooperativas de catadores, gerando renda para comunidades socialmente vulneráveis. Uma única fábrica de reciclagem pode impactar centenas de trabalhadores, o que confere maior robustez para as economias locais em um setor da indústria que é inerentemente sustentável.
Por fim, é importante que líderes globais tomem consciência sobre a necessidade da cooperação internacional para que países em desenvolvimento tenham condições de investir em economia circular, uma vez que o modo de produção linear ainda é, muitas vezes, percebido como um modelo mais viável de operação, ainda que traga perdas em sustentabilidade e desperdício de materiais. Os investimentos verdes no mercado financeiro, quando devidamente estruturados, sob diretrizes que garantem a efetividade das iniciativas investidas, pode ser um caminho inteligente para distribuir recursos para a reciclagem de plástico ao redor do mundo.
Tais temas podem trazer soluções práticas que envolvam tanto a iniciativa privada quanto os governos e o terceiro setor, trazendo impactos perceptíveis na economia, no desenvolvimento social e no enfrentamento das crises climáticas. Se a intenção é lidar com a poluição plástica e o uso de matéria-prima fóssil de forma eficaz, essa discussão precisa olhar com mais atenção para a reciclagem e a economia circular.
* Irineu Bueno Barbosa Júnior é CEO da Cirklo, uma das maiores empresas de reciclagem de PET da América Latina. Durante a COP 30, Cirklo recebeu o reconhecimento da SB COP como um case de sucesso na promoção da economia circular – a empresa encerrou 2025 em plena expansão, após inaugurar outras duas unidades fabris em Maceió (AL) e Ananindeua (PA).