Crise climática expõe gargalo das cidades: planos existem, execução não chega ao território
Publicado em 25/01/2026 às 07:29 edição Lenilde Pacheco
Mariana Pontes: aumento da frequência e intensidade de desastres climáticos requer soluções em escala
Mariana Pontes*
O principal desafio das cidades brasileiras diante da crise climática não é a escassez de diagnósticos, planos ou estratégias, mas demanda em transformar esse conhecimento acumulado em ações concretas no território. Em um cenário de intensificação dos eventos extremos e aprofundamento das desigualdades urbanas, o planejamento, quando dissociado da execução, deixa de ser solução e passa a se tornar parte do problema, produzindo consenso técnico sem gerar impacto real sobre as populações mais vulneráveis.
Essa limitação se torna ainda mais evidente à luz dos dados oficiais sobre vulnerabilidade climática. Informações sistematizadas pela plataforma AdaptaBrasil, desenvolvida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, indicam que 2.801 dos 5.570 municípios brasileiros estão classificados em níveis alto ou muito alto de vulnerabilidade, considerando exposição a riscos, sensibilidade social e capacidade adaptativa. O dado revela uma dissociação crescente entre conhecimento técnico e transformação territorial, especialmente diante do investimento na construção de planos climáticos e instrumentos de planejamento urbano nas últimas décadas.
O aumento da frequência e intensidade de desastres climáticos reforça a alta demanda. Dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), analisados por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostram que entre 2020 e 2023 o Brasil registrou mais de 7.500 eventos extremos associados a chuvas intensas, como enchentes, enxurradas e deslizamentos, um crescimento superior a 220% em relação à década de 1990. No mesmo período, 83% dos municípios brasileiros foram atingidos por ao menos um desastre relacionado a chuvas, frente a 27% nos anos 1990. Em outras palavras, os riscos climáticos deixaram de ser exceção e passaram a integrar a rotina urbana.
O desafio central está no descompasso entre formulação e implementação. Aspectos como a complexidade administrativa, limitações orçamentárias, a articulação entre políticas setoriais e os ciclos políticos fazem com que parte do planejamento permaneça no campo normativo. Com isso, ainda coexistem instrumentos técnicos avançados com territórios que enfrentam fragilidades como drenagem insuficiente, baixa cobertura vegetal e maior exposição a eventos climáticos extremos.
É nesse espaço entre o saber técnico e a ação concreta que as organizações sociais assumem um papel estratégico. Ao operarem de forma híbrida, articulando conhecimento técnico, financiamento público e presença contínua no território, essas organizações avançam onde as políticas públicas enfrenta limites operacionais. Diferentemente das estruturas públicas tradicionais, condicionadas por ciclos eleitorais e burocracias rígidas, elas apresentam maior flexibilidade institucional, continuidade de atuação e capacidade de diálogo direto com comunidades locais, transformando diretrizes abstratas em projetos executáveis e mensuráveis.
A crise climática incide de forma profundamente desigual sobre o espaço urbano. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas e comunidades urbanas, áreas geralmente marcadas por infraestrutura precária, maior exposição a riscos ambientais e menor acesso a serviços públicos. O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima reconhece que populações de baixa renda, majoritariamente negras, concentram as maiores vulnerabilidades socioambientais. Nesse sentido, a crise climática atua como vetor de reprodução das desigualdades urbanas, tornando as cidades não apenas mais vulneráveis, mas também mais injustas.
A recorrência de desastres e a persistência dessas vulnerabilidades indicam que o desafio central das cidades brasileiras não é apenas ampliar o volume de diagnósticos, mas construir arranjos institucionais capazes de implementar soluções com escala, continuidade e impacto real. Enquanto o planejamento permanecer dissociado da execução, os riscos continuarão a se concentrar nos mesmos territórios e sobre as mesmas populações.
Diante desse cenário, o debate ultrapassa a dimensão do planejamento e passa a envolver os arranjos institucionais capazes de transformar diretrizes em ações concretas nos territórios. Nesse contexto, a cooperação entre políticas públicas, organizações da sociedade civil, universidades e iniciativas comunitárias revela-se estratégica. É nessa convergência que o conhecimento técnico e científico se conecta às dinâmicas locais, contribuindo para a qualificação da implementação, o fortalecimento da resiliência urbana e a construção de cidades mais inclusivas e preparadas para os desafios contemporâneos.
* Mariana Pontes é diretora-presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES). É Arquiteta e Urbanista com foco em gestão de projetos de desenvolvimento sustentável. Com um MBA em Gestão de Projetos e Mestrado em Desenvolvimento Urbano, ela alia seu conhecimento teórico à prática, obtendo a certificação PMP. Com experiência no ensino de Arquitetura e Urbanismo, Mariana lidera um time multidisciplinar no desenvolvimento de projetos urbanos, focando em inovação, inclusão e diversidade. Além da gestão, prioriza a integração de todas as vozes no planejamento das cidades do futuro.