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Repatriação: Araras-azuis são trazidas da Alemanha para reinserção na região de Curaçá

Publicado em 10/02/2025 às 07:09 edição Lenilde Pacheco


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Aves chegaram em voo procedente de Berlim, na Alemanha, e seguiram para quarentena - Foto: Divulgação

Quarenta e uma araras-azuis foram repatriadas da Alemanha ao Brasil, ação prevista em plano de trabalho que tem como objetivo devolver a espécie ao seu habitat natural, na região de Curaçá, na Bahia. O desembarque das aves ocorreu no aeroporto de Petrolina, em Pernambuco, onde foram recebidas por uma equipe do Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional, da Secretaria de Defesa Agropecuária, do Ministério da Agricultura e Pecuária. As araras são alvo do comércio ilegal, entre outras ações predatórias.

Na chegada, foram adotadas medidas rigorosas de fiscalização, incluindo a verificação da documentação, a emissão da Guia de Trânsito Animal, a inspeção de bagagens e o recolhimento dos resíduos da aeronave. Em seguida. as aves foram encaminhadas para o quarentenário, onde passaram por um processo de microchipagem.

Em 2020, o Brasil já havia repatriado 52 ararinhas-azuis. Assim como no passado, o processo atual visa a reprodução e a soltura das araras, assegurando que a espécie permaneça fora do risco de extinção.

A ararinha-azul é uma espécie originária e exclusiva do Brasil, especificamente da região de Curaçá e Juazeiro, no Norte da Bahia. Há um Plano de Conservação da espécie, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Association for the Conservation of Threatened Parrots (ACTP), organização sem fins lucrativos sediada na Alemanha, que atua como criadouro particular de espécies exóticas.

Para garantir a viagem das aves, um esquema mobilizou servidores do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e de diversos órgãos, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão) e a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro). Também houve o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF), da Polícia Federal (PF), da Receita Federal Brasileira (RFB) e da CCR-Aeroportos.

De acordo com o Anffa Sindical, o processo de repatriação foi iniciado em outubro do ano passado, por meio de um requerimento enviado ao Serviço de Inspeção e Saúde Animal (Sisa-PE) e recepcionado pela auditora fiscal federal agropecuária Marta Pedrosa Maior. O documento contém todos os requisitos que devem ser cumpridos para a viagem das aves, assim como as restrições sanitárias do país de procedência.

“Após essa etapa, solicitamos informações sobre o local de quarentena dessas aves, já que ele também tem de ser inspecionado pelo Serviço Veterinário Oficial (SVO)”, explicou a auditora. A atividade foi realizada pela Adagro, também em Petrolina.

Certificadas as condições documentais e de alojamento das ararinhas, outras questões foram avaliadas. Uma delas era o voo que trouxe os animais, pois ele saiu da Alemanha, país com restrições sanitárias relacionadas à Febre Aftosa e Peste Suína Africana, doenças que não circulam no Brasil e podem colocar em risco a agropecuária nacional. Para isso, foi realizada uma série de reuniões entre representantes do Sisa, do Serviço de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) e da Coordenação Geral de Trânsito, Quarentena e Certificação Animal (CQTQA).

Antes do ingresso das aves no Brasil, ainda foi realizada a inspeção sanitária das aves e das bagagens dos 11 passageiros e tripulantes da aeronave. Também foi necessária a destruição de resíduos do serviço de bordo e de produtos proibidos encontrados nos pertences dos passageiros. O foco é impedir a entrada de possíveis pragas no país.

Apesar de complexa, a operação foi bem sucedida e as 41 ararinhas já estão no local de quarentena, onde ficarão de 21 a 28 dias. Neste período, será realizada a coleta de material para exames de detecção de doenças como a Influenza Aviária (IA) e Doença de NewCastle (DNC).

“Confirmando que elas estejam livres de patógenos, as aves serão autorizadas a entrar definitivamente em território nacional e serão transportadas para o Refúgio de Vida Silvestre da ararinha-azul, em Curaçá, na Bahia, sob responsabilidade da BlueSky Caatinga, que é uma organização privada de reflorestamento e geração de renda sustentável através de Crédito de Carbono”, informou o auditor fiscal federal agropecuário Washington Luiz Júnior, do Vigiagro do Vale do São Francisco (Vigi-Vale-PE).

O Projeto

De acordo com Ugo Vercillo, diretor da BlueSky, a ararinha-azul é uma espécie ameaçada por conta do tráfico de animais. O último indivíduo selvagem desapareceu em outubro de 2000. Contudo, o trabalho de reintrodução na fauna brasileira tem sido muito bem sucedido.

O grupo de 41 ararinhas é o segundo enviado pela ACTP. Em março de 2020, 52 aves chegaram ao centro e, em 2022, ocorreram as primeiras solturas. Desse grupo, 20 foram soltas na natureza e o restante está em cativeiro para reprodução.

“As aves se adaptaram bem à caatinga e tivemos 11 filhotes nascidos em cativeiro e 7 em vida livre. Todos os animais reintroduzidos são rastreados por rádio colar e as aves são monitoradas ao longo de todo dia durante todos os dias do ano”, comemorou o diretor da BlueSky.

Do grupo recém chegado, Vercillo explica que também haverá uma avaliação sobre quais aves estarão aptas à soltura e que esse processo deve acontecer em junho. Para ele, o projeto superou as metas de conservação esperadas, como a taxa de sobrevivência ao longo do primeiro ano e surpreendeu principalmente pelo resultado de filhotes nascidos.

“Tivemos um retardo na reintrodução de novos grupos em 2023 e 2024, mas com a chegada desse novo grupo, esperamos ter resolvido esse ponto. Agora, é fazer uma boa preparação e esperar a resposta da natureza. Se novos casais forem formados, as chances de sucesso crescem significativamente”, finalizou.